ROMEU E JULIETA
William Shakespeare

***

ROMEU E JULIETA

WILLIAM SHAKESPEARE

COLECO NOVIS

BIBLIOTECA VISO - 12

A obra de William Shakespeare perdurou ao longo dos sculos
como referncia inigualvel da literatura dramtica universal.
    Com Romeu e Julieta, o autor criou um dos mitos da nossa
civilizao, atravs de um enredo habilmente construdo, em
que o amor e a morte se encadeiam numa sucesso emocionante de
encontros e desencontros, dios e amizades, esperanas e
desesperos. Na verdade, a paixo dos dois jovens, pertencentes
s famlias rivais dos Capuletos e dos Montecchios, acaba por
ter um destino trgico e redentor, que marca uma das mais
belas histrias de amor.

Ttulo: Romeu e Julieta
Ttulo Original: Romeo and Juliet
Autor: William Shakespeare
Traduo: Maria Joo Martins
Traduo cedida por
Publicaes Europa-Amrica, Ltda.
2000 BIBLIOTEX; S. L.
para esta edio ABRIL/CONTROlJOrNAL
Impresso: Fevereiro de 2000
Abril/Controljornal/Edipresse

NDICE

ACTO I ............................. 7/0
ACTO II ........................... 28/1
ACTO III .......................... 47/2
ACTO IV ........................... 69/3
ACTO V ............................ 81/3

Personagens

DELLA-SCALA, Prncipe de Verona.

PRIS, jovem fidalgo, parente do Prncipe.

MONTECCHIO, Chefe de uma das casas inimigas.

CAPULETO, Chefe da outra das casas inimigas.

UM VELHO, tio de Capuleto.

ROMEU, filho de Montecchio.

Amigos de Romeu:

MERCCIo, parente do Prncipe.
BENvLIo, sobrinho de Montecchio.

TEbALDo, sobrinho de Lady Capuleto.

FREI LOURENO, um franciscano.

FREI Joo, um frade da mesma ordem.

BALTASAR, criado de Romeu.

Criados de Capuleto:

Sanso.
GREGRIO.

Pedro, criado da ama de Julieta.

ABRAO, criado de Montecchio.

UM Boticrio.

Trs msicos.

Lady Montecchio, Esposa de Montecchio.

Lady Capuleto, Esposa de Capuleto.

JULIETA, filha de Capuleto.

Pajem de Pris, Pajem de Merccio, um outro pajem,
um oficial.

A AMA DE Julieta.

Cidados de Verona; homens e mulheres parentes das
duas casas; mascarados, guardas, rondas da noite e Coro.

A cena passa-se em Verona. No 5 acto, um momento em
Mntua.

Prlogo

Na bela Verona, onde se vai passar este drama, duas
famlias, iguais em nobreza, impulsionadas por antigos
rancores, fazem com que entre si se desencadeiem novas
discrdias, em que o sangue dos cidados tinge as mos dos
cidados.
Das entranhas fatais destas duas famlias inimigas, e sob
funesta estrela, nascem dois amantes, cuja desventura e
lamentvel runa h-de enterrar, com a sua morte, a luta dos
seus pais. As terrveis peripcias deste fatal amor e a raiva
obstinada desses pais, que nada pde aplacar seno a morte dos
filhos, vo ser, durante duas horas, o assunto da nossa
representao. Se quiserdes ouvir-nos com benvola ateno, o
nosso zelo h-de esforar-se por corrigir o que nela achardes
de insuficiente.

Acto I

Cena I

- Verona. Praa pblica (Entram SANSO e GREGRIO, armados
de espadas e escudos.)

Sanso. - Palavra de honra, Gregrio, que no suportaremos
mais a carga!
GREGRIO. - Pois claro, porque no somos nenhuns escravos.
Sanso. - Quero eu dizer que, se nos fizerem encolerizar,
arrancaremos da espada.
GREGRIo. - Sim, mas enquanto viveres faz o possvel por que
a tua cabea se no arranque dos teus ombros.
Sanso. - Eu bato-me com presteza quando me movem a isso.
GREGRIO. - Mas no  l com muita presteza que te sentes
movido a bater-te.
Sanso. - Qualquer co da casa dos Montecchios me mover.
GREGRIo. - Quem se move, anda; quem  valente, est firme;
de modo que, se te moves, foges.
Sanso. - Um co daquela casa encontrar-me- firme: tomarei
o lado da parede a todos os Montecchios, sejam eles homens ou
mulheres.
GREGRIo. - Isso indica que s um dbil escravo, pois s os
fracos vo  parede.
SANso. -  verdade; por isso as mulheres, que so vasos
fracos, se levam sempre  parede; pois arrancarei da os
homens e lanarei para l as raparigas.
GREGRIO. - A contenda  entre os nossos amos e entre ns,
seus criados.
Sanso. -  o mesmo; hei-de ser um tirano! Quando me tiver
batido com os homens, serei cruel para com as mulheres; todas
as virgens desaparecero.

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GREGRIO. - O qu?! Cortar-lhes-s a cabea?
Sanso. - A cabea ou a virgindade. Entende l como
quiseres.
GREGRIO. - Quem ter de entend-lo ser quem o sentir.
SANso. - Pois ho-de sentir-me enquanto puder ter-me de p;
e todos sabem que sou um bom pedao de carne.
GREGRIo. - L peixe  que tu no s, porque, se o fosses,
no passarias dum badejo. Puxa da espada, que a vm dois
Montecchios.
SANso. - Pronto, j est fora da bainha. Provoca-os, que eu
estou atrs de ti.
GREGRIo. - Como? Voltando as costas e fugindo?
SANSO. - Por mim nada receies.
GREGRIo. - Credo! Pois eu havia de ter medo de ti?
SANso. - Que a lei esteja do nosso lado. Por isso deixa que
eles comecem.
GREGRIO. - Vou carregar o sobrecenho ao passar por eles, e
que o entendam como quiserem.
SANSO. - Como quiserem ou como ousarem... Vou morder o
polegar olhando-os, e ser para eles grande desonra se
consentirem nisso...

(Entram ABRAO e BALTASAR.)

ABRAo. -  para ns que mordeis o polegar, senhor?
SANso. - Senhor, estou a morder o polegar.
ABRAo. - Mas  para ns que o mordeis?
SANSO (aparte a GREGRIO). - Se Lhe disser que sim, temos a
lei a nosso favor?
GREGRIO (aparte a SANSO). - No.
SANSo. - No, senhor; no  para vs que mordo o polegar,
meu senhor; mas mordo o polegar, senhor.
GREGRIO. - Quereis provocar-nos, senhor?
ABRAo. - Provocar-vos? No, senhor!
SANso. -  que, se o quereis, senhor, estou s vossas
ordens. Sirvo a um amo to bom como o vosso.
ABRAo. - Mas no melhor.
SANSO. - Est bem, senhor.
GREGRIO (aparte a SANSO). - Dize-lhe que  melhor, que vem
a um parente do nosso amo.
SANso. - E melhor, sim, senhor!

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ABRAO. - Mentis!
SANso. - Desembainhai a espada, se  que sois homens!
Gregrio, no te esqueas da tua estocada mestra.

(Combatem. Entra BENVLIO.)

BENVLIO. - Separai-vos, insensatos! Embainhai as espadas!
Vs no sabeis o que estais a fazer. (Obriga-os a baixar as
espadas.) (Entra TEBALDO.)

TEBALDo. - Para que ests tu de espada desembainhada entre
estes covardes vilos? Volta-te, Benvlio, e contempla a tua
morte.
BEnvLio. - Eu apenas quis restabelecer a paz; mete a tua
espada na bainha ou ajuda-me com ela a separar estes homens.
TEbALDo. - O qu?! De espada na mo e falas de paz? Odeio
essa palavra como odeio o Inferno, a todos os Montecchios e a
ti! Defende-te, covarde!

(Lutam. Entram vrios indivduos de ambas as casas e tomam
parte na refrega; depois entram cidados com paus e
partazanas.)

1 CIDADO. - Paus! Podes e partazanas! Fora! Abatei-os!
Abaixo os Capuletos! Abaixo os Montecchios!

(Entram CAPULETO, ainda de roupo, e LADY CAPULETO.

CAPULETO. - Que barulho  este? Dai-me a minha espada de
combate!
LADY CAPULETO. - Uma muleta, uma muleta! Para que quereis
vs uma espada?
CAPULETO. - A minha espada, j disse! Vem ali o velho
Montecchio, que brande a espada para me desafiar.

(Entram MONTECCHIO e LADY MONTECCHIO.)

MONTECCHIo. - Oh, vilo Capuleto! No me segureis;
deixai-me!

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LADY MONTECCHIO. - No dareis um passo para irdes em busca
dum inimigo.

(Entra o PRnCIPE com o seu squito.)

PRNCIPE. - Oh, vassalos rebeldes, inimigos da paz, que
profanais essas lminas de ao manchadas com o sangue dos
vossos irmos! O qu?! Eles no me querem ouvir! Que quer isto
dizer? Oh, homens, oh, feras, que apagais o fogo da vossa
raiva insensata com os jorros purpreos que brotam das vossas
veias! Sob pena de tortura, que as vossas mos sanguinolentas
arrojem ao cho essas armas mal apontadas, e ouvi a sentena
do vosso Prncipe irritado. Por tua causa, velho Capuleto, e
pela tua, Montecchio, j trs rixas civis, nascidas de
qualquer frivolidade, perturbaram por trs vezes o sossego das
nossas ruas e obrigaram velhos cidados de Verona a pr de
parte os seus graves e decentes vesturios para brandirem
velhas partazanas, corrodas pela paz, nas suas mos to
veLhas como elas, a fim de separarem o dio que vos corri. Se
mais alguma vez perturbardes o sossego das nossas ruas, as
vossas vidas ho-de pagar o dano feito  paz. Por esta vez,
que todos se retirem. Vs, Capuleto vireis comigo; e vs,
Montecchio, ide esta tarde  velha Vila Franca, no habitual
lugar de justia, para que conheais o que mais nos aprouver
resolver sobre este assunto. Mais uma vez repito: que toda a
gente se retire, sob pena de morte.

(.Saem todos, excepto MONTECCHIO, LADY MONTECCHIO e
BENVLIO.)

MoNTECCHIo. - Quem provocou de novo esta antiga discrdia?
Dizei-me, sobrinho: estveis presente quando ela comeou?
BENvLIo. - Antes de eu chegar, j aqui estavam lutando
corpo a corpo os criados do vosso inimigo e os vossos.
Desembainhei a espada, na inteno de os separar; no mesmo
instante chega o furioso Tebaldo, de espada em riste, e, ao
mesmo tempo que lanava provocaes aos meus ouvidos,
agitava-a  volta da sua cabea, fazendo os ares, que, no
sentindo com isso dano algum, lhe assobiavam de troa.
Enquanto trocvamos botes e golpes, chegava mais e mais gente,
que se batia a favor duma e outra parte, at que apareceu o
Prncipe, que separou os contendores.

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LADY MONTECCHIO. - Onde  que est Romeu? J hoje o viste?
Estou bem contente por ele se no ter metido nesta refrega.
BENvLIo. - Senhora, uma hora antes de o Sol bem amado ter
assomado  janela dourada do Oriente, uma intranquilidade de
nimo me obrigou a sair, e  sombra dos sicmoros que crescem
a oeste da cidade, distingui o vosso filho, que passeava nessa
hora to matutina. Dirigi-me para ele, que, ao aperceber-me,
se internou na espessura do arvoredo. Eu, medindo as suas
inclinaes pelas minhas, que nunca esto mais activas que
quando me encontro s, segui o meu capricho sem perseguir o
seu, e com satisfao evitei quem com satisfao fugia de mim.
MoNTECCHIo. - H muitas madrugadas que a tem sido visto,
aumentando com as suas lgrimas o orvalho da manh e juntando
s nuvens mais nuvens com os seus fundos suspiros; mas logo
que o Sol, que a todos alegra, comea no mais longnquo
Oriente a descerrar as cortinas de sombras do leito da aurora,
o meu filho, cheio de melancolia, vai para casa, fugindo 
luz; e metido sozinho no seu quarto, fecha as janelas,
aferrolha-se, para no deixar entrar a bela luz do dia, e
forja para si uma noite artificial. Deplorvel e fatal
tornar-se- este estado de esprito, a no ser que um bom
conselho possa afastar a causa.
BENVLIO. - Conheceis a causa, meu nobre tio?
MONTECCHIO. - Nem a sei nem dele conseguirei que ma
desvende.
BENvLIo. - E tendes empregado alguns meios para o
conseguirdes?
MONTECCHIO. - Eu e muitos outros amigos o temos feito. Mas
ele, conselheiro das suas prprias afeies,  para consigo
mesmo, no direi to fiel, mas to impenetrvel e concentrado,
to difcil de sondar, como o  o boto de rosa mordido por um
insecto maligno antes que as suas ptalas delicadas tenham
desabrochado ou ao Sol tenha dedicado a sua beleza. Pudssemos
ns saber apenas qual  a origem dos seus desgostos, e
seramos to felizes por Lhos curarmos como pelo facto de os
conhecermos.

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BENvLIo. - Ei-lo! A vem. Retirai-vos, por favor. Hei-de
saber a causa da sua aflio, ou muito reservado se mostrar
comigo.
MONTECCHIO. - Oxal que a ss com ele tenhais a sorte de Lhe
ouvir uma confisso sincera. Vamos, senhora, afastemo-nos.

(Saem MONTECCHIO e LADY MONTECCHIO. Entra ROMEU.)

BENVLIO. - Feliz madrugada, primo!
RoMEU. -  assim to cedo?
BENVLIO. - Acabam de dar as nove.
RoMEU. - Ai de mim! Como as horas tristes parecem longas!
No era meu pai essa pessoa que se afastava daqui com tanta
pressa?
BENvLIo. - Era. Mas que desgosto  esse que assim alonga as
horas de Romeu?
RoMEu. -  o de no possuir aquilo que, possudo, mas
tornaria rpidas.
BENVLIO. - Amores?
ROMEU. - Privado...
BENVLIO. - De amores?
RoMEu. - Privado dos favores daquela a quem adoro.
BENvLIo. - Ah! Porque ser que o amor, sendo to terno na
aparncia, se torna tirano e cruel quando se experimenta?
RoMEu. - Sim! Porque ser que, tendo o amor os olhos
vendados, descobre, mesmo cego, os caminhos que a sua vontade
deseja? - Onde iremos jantar? - Ai de mim! - O que  que houve
aqui h pouco? No mo digas, porque j soube tudo. - Muito d
o dio que fazer, mas ainda mais d o amor. Oh, amor
turbulento! Oh, dio de amor! Oh, coisa misteriosa que do nada
vem! Oh, pesada leveza, vaidade sria, caos informe de formas
sedutoras, pena de chumbo, fumo resplandecente, fogo gelado,
sade doentia, sono em perptua viglia, que nunca  o que !
- Tal  o amor que sinto, sem sentir em tal amor amor algum. E
tu no te ris?
BENvLIo. - No, primo, antes choro.
RoMEu. - Querido amigo! E porqu?
BENvLIo. - Pela opresso do teu bom corao.
ROMEu. - Que queres? So assim as crueldades do amor! Os
meus prprios pesares dilatam o meu peito, e tu f-lo-s
trasbordar se Lhe acrescentares os teus. Essa afeio que me
mostraste vem juntar mais dor ainda ao excesso da minha.

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O amor  fumo feito de hlito dos suspiros; se o alimentam, 
fogo cintilante nos olhos dos amantes; se o contrariam,  um
mar feito de lgrimas. E que mais ? Discretssima loucura,
fel que amarga e mel que sustenta. Adeus, primo. (Faz meno
de sair.)

BEnvvLIo. - Espera, que eu vou contigo. Ofendes-me se assim
me deixas.
RomEu. - Cala-te, que estou perdido; no sou eu que estou
aqui. Este que tu vs no  Romeu. Romeu est noutra parte.
BENvLIo. - Dize-me seriamente: quem  essa a quem tu amas?
RoMEu. - O qu? Terei de dizer-to soluando?
BENVLIO. - Soluando? No! Mas seriamente dize-me quem .
ROMEU. - Pede a um doente que faa a srio o testamento. Ah!
Que palavra de to mau gosto para um homem que est to
doente! Seriamente, primo, quereis saber? Adoro uma mulher.
BENvLIo. - Quase que acertei no alvo quando te supus
enamorado.
RoMEu. - Que belo atirador! E que linda  a que eu amo!
BENvLIo. - Num alvo bem visvel, querido primo, depressa se
acerta.
RoMEU. - Pois bem; neste alvo no acertas tu. Ela no ser
alvejada com a seta de Cupido; tem alma de Diana, e to bem
armada anda com a forte couraa de castidade que vive fora do
alcance do fraco e pueril arco do amor. No se deixar
assediar por propostas amorosas, no sofrer o desafio de
olhos provocantes, nem abrir a sua bolsa ao ouro que at os
santos seduz. Oh! Ela  rica em beleza, e  somente pobre
porque, quando morrer, com a sua beleza morrer o seu tesouro.
BENvLIo. - Ento fez voto de perptua castidade?
RoMEu. - Fez; e, sendo to avara da sua beleza, faz um
enorme desperdcio, pois que, tratando com tal rigor a sua
formosura, priva de formosura toda a posteridade. lindssima
e muitssimo discreta. Demasiado bela e discreta para merecer
a salvao lanando-me no desespero. Ela abjurou do amor, e
por esse voto eu, que estou morto, vivo ainda, visto que  um
vivo que te est falando.

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BENvLIo. - Segue o meu exemplo: deixa de pensar nela.
RoMEu. - Oh! Ensina-me a maneira de eu deixar de pensar.
BENvLIo. - Dando liberdade aos teus olhos: examina outras
belezas.
RoMEu. - Seria esse o meio de proclamar mais alto a dela.
Essas felizes mscaras, que beijam o rosto das beldades, por
serem pretas s servem para nos mostrar que escondem radiante
brancura. Aquele que foi ferido pela cegueira no pode
esquecer o precioso tesouro da sua vista perdida. Mostra-me
uma mulher de surpreendente beleza. De que me servir ela
seno de comentrio quela que  muito superior a essa
formosura? Adeus. Tu no podes ensinar-me a esquecer.
BENV6LIO. - Hei-de ensinar-to, ou de contrrio morrerei teu
credor.

(Saem.)

Cena II

- Uma rua

(Entram CAPuLETo, PRIS e um CRIADo.)

CAPULETo. - Mas Montecchio est, como eu, condenado a igual
penalidade; e no me parece que seja difcil a homens to
velhos como ns vivermos em paz.
PRis. - Ambos gozais de honrosa considerao, e pena  que
tenhais h tanto tempo vivido em inimizades. Mas agora,
senhor, que respondeis ao meu pedido?
CAPULETO. - No posso seno repetir o que j vos disse. A
minha filha nada sabe do mundo. Ainda no completou catorze
anos. Deixai que mais dois Veres extingam o seu esplendor
para que eu a julgue madura para o matrimnio.
PRIs. - Outras mais novas do que ela so j mais felizes.
CAPULETO. - Mas bem depressa se fanam as que to cedo o so.
A terra engoliu-me todas as esperanas; s me resta ela, que 
a minha nica herdeira, aquela em quem ponho todas as minhas
esperanas. Mas cortejai-a, gentil Pris, apoderai-vos do seu
corao. O meu consentimento apenas depende do dela. Se bem
vos acolher, o meu voto favorvel juntar-se-  sua escolha.
Esta noite, segundo o tradicional costume, dou uma festa,

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para a qual convidei vrias pessoas da minha estima. Aumentai
com a vossa presena esse nmero e sereis bem-vindo. Vinde
esta noite  minha humilde casa contemplar essas estrelas que
andam pela Terra e que iluminam o negro cu. Prazer semelhante
quele que experimenta o jovem robusto quando o Abril florido
chega, na ocasio em que o coxo Inverno se retira, sentireis
vs, esta noite em minha casa, entre esses frescos botes de
rosa. Ouvi-as a todas, contemplai-as a todas e dai a
preferncia quela cujo mrito vos parecer maior. Claro est
que a minha filha  mais uma que pode figurar no nmero,
embora no tenha valor algum. Andai, vinde comigo. (Ao CRIADo,
entregando-lhe um papel.) Vai tu, patife, e percorre-me
depressa esta bela Verona; procura essas pessoas cujos nomes
esto aqui escritos e dize-lhes que a minha casa e o meu bom
acolhimento as esperam com prazer.

(Saem CAPULETO e PRIS.)

CRIADO. - Vai procurar aqueles cujos nomes aqui esto
escritos! Aqui est escrito que o sapateiro se deve servir do
seu cvado, o alfaiate da sovela, o pescador do pincel e o
pintor das suas redes. Mas mandou-me procurar as pessoas cujos
nomes aqui esto escritos, e eu nunca poderei saber que nomes
 que o escrevente aqui ps. Tenho de dirigir-me aos
entendidos. Boa ocasio...

(Entram BENVLIO e ROMEu.)

BENvLio. - Cala-te, homem! Um fogo apaga outro fogo; uma
dor acalma com o sofrimento doutra. D voltas at ficares
aturdido, e serenar-te-s rodando em direco contrria. Um
sofrimento desesperado cura-se com a dor doutro sofrimento. D
aos teus olhos qualquer veneno novo e o forte veneno antigo
perder o seu poder.
RoMEu. - A tanchagem  excelente para isso.
BENVLIO. - Para isso qu?
RoMEu. - Para pernas partidas.
BENvLIo. - Estars doido, Romeu?
RoMEu. - Doido no, mas mais cativo do que um doido;
encerrado numa priso, sem comer, chicoteado, atormentado e...
Boas tardes, meu amigo.

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CRIADO. - Boas tardes vos d Deus. Dizei-me, por favor:
sabeis ler?
RoMEu. - Sim, o meu prprio destino na minha desventura.
CRIADO. - Isso talvez o aprendsseis sem livro; mas
dizei-me, por favor: sereis capaz de ler qualquer coisa que
vejais?
RoMEu. - Sim, contanto que eu conhea as letras e a
linguagem.
CRIADO. - Falais honestamente; Deus vos d sorte. (Faz
meno de sair:)
RoMEu. - Espera, homem, que eu sei ler. (L.) Senhor
Martinho, esposa e filhas; conde Anselmo e suas graciosas
irms; viva Vitrvio; senhor Placncio e amveis sobrinhas;
Merccio e filhas; a minha encantadora sobrinha Rosalina;
via; o senhor Valncio e seu primo Tebaldo; Lcio e a animada
Helena., Uma brilhante reunio! E onde  que vo?
CRIADO. - Cear.
ROMEU. - Cear aonde?
CRIADO. - A nossa casa.
RoMEu. - A casa de quem?
CRIADO. - Do meu amo.
RoMEu. - Tens razo. Era por a que eu devia ter comeado.
CRIADO. - Mas eu agora vou dizer-vo-lo sem que mo
pergunteis. Meu amo  o riqussimo Capuleto, e, se vs no
sois da casa dos Montecchios, peo-vos que apareais por l
para beberdes um clice de vinho. Deus vos d alegria. (Sai.)

BEnvLIo. - Nessa mesma antiga festa dos Capuletos a bela
Rosalina, a quem tanto amas, ceia hoje com todas as admiradas
formosuras de Verona. Vamos at l, e imparcialmente compara o
seu rosto com alguns que eu te hei-de mostrar e
convencer-te-s de que o teu cisne no passa dum corvo.
RoMEu. - Quando a sacrossanta religio dos meus olhos
sustentasse tal falsidade, que em fogo se transformassem as
minhas lgrimas, e que esses transparentes hereges, que tantas
vezes se tm afogado sem morrer, fossem queimados como
impostores. Uma mulher mais bela do que a minha amada! Nem o
Sol, que tudo v, jamais viu beleza igual desde o princpio do
mundo.
BEnvLIo. - Cala-te! Parece-te assim to bela porque,

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no tendo tu com quem a comparar, se equilibrou ela s em cada
um dos teus olhos; mas coloca nessa balana de cristal, num
dos pratos, a beleza da tua amada e, no outro, a beleza duma
outra, que eu te mostrarei brilhando nessa festa: a que agora
julgas sem igual mal te parecer apenas bela.
RomEU. - Irei, no para presenciar o espectculo de tal
formosura, mas para gozar o esplendor da minha amada.

(Saem.)

Cena III

- Um quarto na casa de Capuleto

(Entram LADY CAPULETO e a AMA.)

LADY CAPULETO. -  ama, onde est a minha filha? Dize-lhe
que venha ter comigo.
AmA. - Eu j lhe disse que viesse... To certo como eu ser
ainda virgem aos doze anos.  minha ovelhinha!  minha
joaninha! No queira Deus... Mas onde estar esta menina?
Julieta!

(Entra JULIETA.)

JULIEtA. - O que ? Quem me chama?
AMA. -  a vossa me.
JULIETA. - Aqui estou, senhora. Que me quereis?
LADY CAPULETO. -  o seguinte...  ama, deixa-nos por um
momento; temos neGessidade de falar a ss. Espera, ama;
pensando melhor, deves ouvir a nossa conversa. Tu sabes que a
minha filha comea a ter uma certa idade.
AMA. - Por minha f que posso diz-la sem me enganar numa s
hora.
LADY CAPULETO. - Ainda no completou os catorze.
AMA. - Apostaria catorze dos meus dentes - e contudo destes
catorze tenho apenas quatro - em como ela ainda no tem os
catorze. Quanto tempo falta para a festa de So Pedro?
LADY CAPULETO. - Uns quinze dias, pouco mais.
AMA. - Pois seja. Na noite da vspera de So Pedro  que ela
faz catorze. Susana e ela (que Deus tenha em bom lugar todas
as almas crists!) tinham a mesma idade. Ora bem!

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est com Deus; era demasiado boa para ser minha! Pois, como ia
dizendo, na noite da vspera de So Pedro  que ela faz os
catorze, que eu bem me lembro. H onze anos que foi o
terramoto; e de todos os dias que tem o ano foi precisamente
naquele que ela se desmamou; nunca me h-de esquecer, porque
tive de untar os bicos dos peitos com absinto e sentei-me ao
sol encostada ao muro que fica por baixo do pombal. Vs e o
meu amo tnheis ido a Mntua. Sempre tenho uma memria! Pois,
como ia dizendo, quando ela provou o absinto no meu peito e
sentiu que era amargo, coitadinha, sempre fez uma cara! E
largou o peito. Foi ento que o pombal comeou a tremer e no
foi preciso que ningum me dissesse para me pr a salvo; e
isso foi h onze anos, porque nessa altura j ela se podia ter
sozinha em p. Por minha f que at j corria e tropeava por
toda a parte; at no dia anterior ela tinha feito um galo na
testa, e ento o meu homem (Deus o tenha l em descanso), que
era um homem muito alegre, levantou a pequena e disse-lhe:
"Ento caste de cara? Deixa l, que ainda hs-de cair de
costas quando tiveres mais idade; no , Juli?" E assim Nossa
Senhora me salve em como a linda pequerrucha deixou logo de
chorar e exclamou: "Sim." Havemos de ver em que  que um
gracejo vir a dar. Garanto-vos que nem que eu vivesse mil
anos me esqueceria disto: No  verdade, Juli?, E a louquinha
reprimiu o choro e respondeu: "Sim."
LADY CAPULETO. - Basta, basta. Por favor, cala-te.
AmA. - Sim, minha senhora; mas no posso deixar de me rir
quando penso que ela deixou logo de chorar e respondeu: "Sim."
E contudo garanto-vos que tinha na testa um alto do tamanho
dum ovo. Foi uma queda formidvel e ela chorava a valer. Vai
ento e diz-lhe o meu homem: "Caste de cara? Tu cairs de
costas quando tiveres mais idade; no  Juli?" E ela reprimiu
o choro e respondeu: "Sim."
JULIETA. - Far-me-s o favor de te reprimires tu tambm,
ama?
AmA. - Est bem, est bem. Deus te d uma boa sorte. Eras a
criana mais linda que eu criei. Pudesse eu viver at ver-te
casada e cumprir-se-iam todos os meus desejos.
LADY CAPULETO. - Pois era mesmo de casamento que eu vinha
falar. Dize-me c, Julieta: sentes inclinao para te casares?

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JULIETA. -  uma honra em que nunca pensei.
Ama. - Uma honra! Se no tivesse sido eu a tua nica ama,
diria que tinhas bebido a sabedoria nos peitos a que foste
criada.
LADY CAPULETO. - Bem. J  tempo de pensares no casamento.
Outras mais novas do que tu h aqui em Verona que so grandes
damas e j mes. Se me no engano, eu mesmo j era tua me
muito antes da idade que, ainda donzela, tens agora. Enfim, em
poucas palavras: o valoroso Pris quer-te para sua esposa.
AmA. - Oh, menina que homem! Oh, senhora, como ele no h
outro em todo o mundo! At parece de cera!
LADY CAPULETO. - No h no Vero de Verona flor como ele.
AmA. -  verdade!  uma flor; por minha f que  mesmo uma
flor.
LADY CAPULETO. - Tu que dizes? Poders amar esse fidalgo?
Esta noite v-lo-s na nossa festa. L no livro da fisionomia
de Pris e l hs-de descobrir todo o encanto que a pena da
beleza a traou. Examina uma a uma todas as suas feies e
vers como cada uma delas d realce s outras. E se alguma
coisa de obscuro descobrires nesse precioso livro,
encontr-lo-s explicado nas suas margens, que  o brilho dos
seus olhos. Para completar a beleza deste precioso livro de
amor, apenas lhe falta uma capa. O peixe vive no mar; e  uma
grande honra para a beleza exterior poder envolver a beleza
interior. Aos olhos de muitos, o livro que com fechos de ouro
encerra uma lenda dourada participa da sua glria. De igual
modo tu, casando com ele, participars de tudo quanto possui,
sem com isso sofreres diminuio alguma na tua pessoa.
AMA. - Diminuio! Aumento quereis vs dizer. Pois as
mulheres engrossam por causa dos homens.
LADY CAPULETO. - Em poucas palavras: vers com agrado o amor
de Pris?
JuLIETA. - Se o facto de olhar pode levar ao afecto, olharei
para ele, para que isso acontea; contudo as flechas dos meus
olhos no iro mais alm do que a vossa vontade o permita.

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(Entra um CRIADO.)

CRIADO. - Senhora, os convidados j chegaram, a ceia est na
mesa; chamam por vs; perguntam pela menina; na copa rogam
pragas  ama, e anda tudo em alvoroo. Eu tenho de ir atender
os convidados. Peo-vos que vos no demoreis.
LADY CAPULETO. - Vamos j. Julieta, o conde est  tua
espera.
AMA. - Vai, pequena. Arranja noites felizes para felizes
dias.

(Saem.)

CENA IV

- Uma rua

(Entram ROMEU, MERCCIO, BENVlIO, com mais cinco ou seis
mascarados, e outras pessoas, algumas munidas de tochas.)

RoMEu. - Ento faz-se-Lhe o discurso para nos desculparmos
ou entramos sem cerimnia?
BEnvLio. - A poca dessas prolixidades j passou. No vamos
agora levar um Cupido de olhos vendados tendo na mo um arco
de Trtaro feito de madeira pintada para assustar as damas
como um espanta-pardais. Nem to-pouco vamos anunciar a nossa
entrada com um prlogo dito de cor, titubeando com auxlio de
ponto. Que nos julguem como quiserem. Por nossa parte
marcar-Lhe-emos uma dana e depois marcharemos.
RoMEu. - Dem-me uma tocha; eu no estou para danar; e como
estou sombrio fica-me bem levar a luz.
MERCCIo. - Isso no, gentil Romeu. Ns queremos que dances.
RomEu. - No, no, podeis crer. Vs levais sapatos de baile
e ps leves; eu tenho a alma de chumbo, que me prega ao cho
de tal maneira que no consigo mover-me.
MERCCIo. - Ests enamorado! Pede a Cupido que te empreste
as asas, e voa com elas at ao infinito.
RomeU. - Estou demasiadamente ferido pela flecha dele para
poder voar com as suas asas ligeiras, e to acorrentado 
minha sombria dor que no posso erguer-me acima dela:

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eu sucumbo ao peso do amor.
MERCCIo. - Ento obrig-lo-ias tambm a sucumbir contigo.
s pesado demais para um ser to delicado.
RoMEu. - Delicado, o amor? Dize antes que  demasiado
brutal, rude, violento, e que fere como os espinhos.
MERCCIO. - Se o amor  brutal para contigo, s tu tambm
brutal para com ele. Se te fere, fere-o tambm, e venc-lo-s.
Dai-me uma mscara. (Mascarando-se:) Ora aqui est uma mscara
a cobrir outra. Que me importa agora que qualquer olhar
curioso venha esmiuar as minhas deformidades? Esta fronte de
espessas sobrancelhas corar por mim.
BEnvLio. - V, batamos e entremos. E, logo que entremos,
toca a danar.
RoMEu. -Uma tocha para mim! Que os folgazes alegres
lisonjeiem com os ps as esteiras insensveis. Por minha parte
estou definido por um adgio dos nossos antepassados: Nunca
tive na mo um to bom jogo e no tenho nada para jogar.
MERCCio. - Ora! De noite todos os gatos so pardos, como l
diz o ditado: se ests sombrio, ns te tiraremos, salvo o
devido respeito, do lodaal desse amor em que ests enterrado
at s orelhas. Vamos, que se est a alumiar a luz do dia!
RoMEu. - Isso no  verdade.
MERCCIO. - Quero eu dizer, senhor, que com esta demora
gastamos em vo as nossas luzes, como lmpadas em pleno dia.
Interpreta as minhas palavras em bom sentido, que  esse que
eu lhe dou, pois que elas esto cinco vezes mais na inteno
que nas cinco faculdades do raciocnio.
RoMEu. - Tambm a nossa inteno de assistir a esta
mascarada  boa, e contudo no  do bom juzo l ir.
MErCCIo. - Porqu? Pode saber-se?
ROMEU. - Tive esta noite um destes sonhos...
MERCCIO. - Tambm eu.
RoMEU. - Bem; e que  que sonhaste?
MERCCIO. - Que os sonhadores mentem muitas vezes.
RoMEu. - Sim, na cama, quando dormem e sonham coisas
verdadeiras.
MERCCIo. - Oh! J vejo que a rainha Mab te visitou. Ela  a
parteira das fadas e apresenta-se por uma forma que no 
maior do que a gata que brilha no anel do ndex dum senador;

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e, conduzido por pequenos tomos, passa pelo nariz das pessoas
que dormem. Os raios das rodas do seu carro so feitos de
pernas de aranhas; a coberta, de asas de gafanhotos; as
rdeas, de finssima teia de aranha; os arreios, de hmidos
raios de luar; o cabo de chicote, dum osso de grilo; a mecha 
um fio delgadssimo; o cocheiro, um mosquito de libr
cinzenta, que  mais pequeno do que metade dum pontinho
redondo tirado do dedo indolente duma donzela. O carro  uma
avel vazia, lavrada pelo marceneiro esquilo ou pelo velho
verme segeiro das fadas em tempos imemoriais. E  neste
esplendor que ela galopa, noite aps noite, atravs dos
crebros dos amantes, que ento sonham de amor; galopa sobre
os joelhos dos cortesos, que logo sonham com reverncias;
pelos dedos dos homens de leis, que ento sonham com
honorrios; pelos lbios das damas, que, acto contnuo, passam
a sonhar com beijos; mas muitas vezes, Mab, enfurecida,
atormenta esses lbios com gretas, porque os seus hbitos
esto impregnados de guloseimas. s vezes ela galopa sobre o
nariz dum corteso, e ento ele sonha que  promovido. Outras
vezes, com o rabo dum porco de folar, faz ccegas no nariz dum
proco adormecido, que logo sonha com uma nova ddiva. s
vezes passeia pelo pescoo dum soldado, que sonha ento com as
goelas do inimigo cortadas, com brechas, emboscadas, lminas
espanholas e brindes  sobremesa que no tm fim; mas de
repente ela tamborilha-lhe aos ouvidos; ele d um salto,
acorda, e por causa do susto que teve pragueja uma ou duas
oraes e adormece de novo. Esta  a mesma Mab que entrana de
noite as crinas dos cavalos e enrodilha essas crinas sujas em
ns fericos; que, uma vez desatados, pressagiam grandes
desgraas. Esta  a feiticeira que aperta as raparigas, quando
esto de papo para o ar, e as ensina a resistir pela primeira
vez, fazendo delas boas mulheres.  ela que...
RomEu. - Basta, basta, Merccio. Cala-te! No dizes seno
tolices.
MERccIo. - No admira, pois falo de sonhos, que so filhos
dum crebro ocioso, engendrados unicamente por v fantasia, de
substncia to leve como o ar e mais mutvel do que o vento
que acaricia a todo o instante o seio gelado do Norte, e que,
repentinamente irritado, Lhe volta as costas sibilando em
direco ao Sul, que destila o orvalho.

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BENvLIo. - Esse vento de que falas sopra-nos para fora de
ns mesmos. A ceia est no fim e ns chegaremos muito tarde.
Romeu. - Receio bem que demasiado cedo, pois que a minha
alma pressente qualquer fatalidade que, estando ainda suspensa
nos astros, comear dolorosamente o seu terrvel decurso com
os folguedos desta noite e por termo a esta vida detestvel
encerrada no meu peito por qualquer vil sentena de morte
prematura. Mas aquele que governa o leme da minha existncia
dirija o meu barco! Para a frente, alegres camaradas!
BENVLiO. - Rufem o tambor!

(Saem.)

Cena V

- Sala em casa de Capuleto

(H msicos que esperam. Entram criados.)

1 CRIADO. - Onde estar Cassarola, que no ajuda a servir?
Ele mudar um prato? Isso sim! E limpar uma travessa?
2 CRIADO. - Quando os bons modos estiverem s nas mos dum
ou dois homens, e estas estiverem por lavar, ser uma porcaria
de negcio.
1 CRIADO. - Leva daqui os tamboretes; afasta o aparador;
olha-me por essas pratas. V se me guardas um pedao de
maapo, e, se s meu amigo, dize ao porteiro que deixe entrar
a Susana Rebola e a Nela.  Antnio!  Cassarola!
2 CRIADO. - Pronto, amigo!
1 CRIADO. - Perguntam por vs, chamam-vos, reclamam-vos e
procuram-vos na sala grande.
2 CRIADO. - No se pode estar aqui e alm ao mesmo tempo.
Mexei-vos, rapazes; com entusiasmo, que o ltimo que viver
herda de todos.

(Saem. Entram CAPULETO, JULIETA e outras pessoas da
famlia ao encontro dos convidados e mscaras.)

CAPULETo. - Sede bem-vindos, cavalheiros! As damas que no
tm calos nos ps querem dar uma volta convosco. Qual de vs,
minhas senhoras, se negar agora a danar?

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Apostarei que tem calos a que se fizer rogada. Acertei no
alvo? Sede bem-vindos, meus senhores. Nos meus bons tempos
tambm eu punha mscara e sabia segredar ao ouvido das lindas
damas uma histria que Lhes agradasse. Mas tudo passou!... J
l vai! Mais uma vez, sede bem-vindos, meus senhores. Que a
msica comece. Dem lugar, meus senhores, dem lugar, e vs
meninas, ps ligeiros. (A msica toca e comeam a danar.)
Tragam mais luzes, rapazes, e afastem essas mesas. Apaguem o
fogo, que a sala j est quente demais. Ol, meu maroto, este
divertimento inesperado corre s mil maravilhas, no ?
Sentai-vos, querido primo Capuleto, pois para vs e para mim
j o tempo das danas passou. H quantos anos tommos ns
parte pela ltima vez num baile de mscaras?
2 CAPULETO. - Virgem Santa! H-de haver trinta anos.
CAPULETO. - O qu, homem? Olhai que ainda no h tanto!
Venha o Pentecostes quando quiser, que deve haver vinte e
cinco anos que Lucncio se casou, e nessa altura tommos parte
numa mascarada.
2 CAPULETO. - H mais, h mais; o filho de Lucncio tem
mais idade, senhor. O filho tem trinta.
CAPULETo. - Isso pode l ser?! Ento o filho ainda no era
maior h dois anos...
RoMEu. - Quem  aquela senhora que d a mo quele
cavalheiro?
CRIADO. - No sei, senhor.
RoMEu. - Oh! Ela ensina as tochas a brilhar! Parece colocada
na face da noite como uma jia de alto preo na orelha dum
etope.  beleza demasiado cara para se possuir e demasiado
preciosa para a terra. No meio das outras, essa senhora parece
um cisne de neve no meio dos corvos. Quando acabar a dana
hei-de observar o lugar onde ela se senta, para, com o
contacto da sua, fazer ditosa a minha mo to rude. Teria o
meu corao amado at agora? Olhos meus, desmenti isso, porque
at  noite de hoje eu nunca vi a verdadeira beleza!
TEBALDo. - Esta voz no pode ser seno dum Montecchio.
Traz-me o meu espadim,  rapaz! O qu? Ento esse miservel
atreve-se a vir aqui mascarado para se rir e fazer escrnio da
nossa festa? Pois juro pela antiguidade e honra da minha
famlia que no tenho remorsos de o estender a.
CAPULETO. - Porque  que ests to zangado, meu sobrinho?

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TEBALDO. -  tio, este que ali est  um Montecchio, nosso
inimigo, um miservel que veio at c por despeito, para
troar da nossa festa.
CAPULETO. -  o jovem Romeu?
TEBALDo. -  ele mesmo, esse malvado Romeu.
CAPULETO. - Acalma-te, querido sobrinho, e deixa-o em paz;
ele porta-se como um fidalgo. E, para dizer a verdade deve
orgulhar-se de ele ser um jovem virtuoso e de impecvel
conduta. Eu no queria, nem pelas riquezas de toda esta
cidade, fazer-lhe afronta aqui na minha casa. Por isso,
acalma-te e no te ocupes dele;  esse o meu desejo, e, se o
quiseres respeitar, mostrars uma fisionomia amvel; desanuvia
esse semblante, que fica muito mal numa festa.
TEBALDO. - Fica muito bem quando entre os nossos convidados
est um tal vilo. Eu no o posso suportar.
CAPuLETo. - Hs-de suport-lo! Olhem l agora o fedelho!
Digo eu que hs-de e hs-de mesmo! Quem  que manda aqui? Sou
eu, ou s tu? No poders suport-lo!!! Deus me livre de que
fosses levantar um tumulto entre os meus convidados. Querias
emproar-te, meu galo? Querias ser o heri?
TEBALDO. - Mas isto  uma vergonha, tio.
CAPULETO. - Deixemo-nos mas  de histrias. Ests a ser
impertinente, no  verdade? Pode sair-te cara essa vaza. Eu
sei o que digo. Queres contrariar-me? Escolheste boa ocasio!
- Bravo, meus senhores! - s um fanfarro! Vai e est
sossegado, ou... - Mais luzes, mais luzes! - para vergonha
tua, far-te-ei eu estar sossegado. - Vamos, vamos, meus
senhores, animai-vos.
TEBALDo. - A pacincia a que me obrigam luta com a minha
prpria clera, causando-me calafrios. Vou-me embora, mas a
vinda deste intruso, que agora parece de mel, h-de
converter-se ao mais amargo fel. (Sai.)

ROMEU (a JULIETA). - Se a minha mo indigna profana este
santo relicrio, os meus lbios, rubros peregrinos, esto
prontos a, como leve expirao, suavizar esse rude contacto
com um terno beijo.
JULIETA. - Sois muito injusto para com a vossa mo, bom
peregrino, pois que ela mostra nisto respeitosa devoo; as
prprias santas tm mos que so tocadas pelas dos peregrinos,
e esse contacto  como se fosse um beijo desses bons romeiros.

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RoMEu. - As santas e esses bons peregrinos no tm lbios?
JULIETA. - Tm lbios, de que se podem servir s para rezar.
RoMEu. - Deixa ento, minha santa querida, que os lbios
faam o que fazem as mos. Elas pedem, aceita a sua splica,
para que a minha f se no mude em desespero:
JULIETA. - As santas no se movem, mesmo que atendam os
rogos que lhes faam.
RoMEu. - Ento no vos movais enquanto eu recolho o fruto da
minha prece. Assim os teus lbios purificam o pecado dos meus.
(Beija-a.)
JULIETA. - Deste modo passou para os meus lbios o pecado
dos vossos.
RoMEu. - O pecado dos meus lbios? Oh, dulcssima culpa!
Devolvei-me o meu pecado.
JULIETA. - Beijais com arte!
AMA. - Vossa me deseja dizer-vos uma palavra.
ROMEU. - Quem  a me dela?
AMA. - Ora essa, senhor. A me da menina  a dona desta
casa, e  uma boa senhora, prudente e virtuosa. Eu  que criei
a filha, a menina com quem estveis a falar, e sempre vos digo
que aquele que a levar leva um bom dote.
RoMEu. -  ento uma Capuleto? Oh, minha querida credora! A
minha vida est nas mos da minha inimiga.
BENVLIo. - Ento? Vamo-nos embora, que o baile est no fim.
RoMEu. - Sim. E o meu desassossego est no auge.
CAPULETO. - Ento, meus senhores No vos vades j embora.
Temos uma pequena refeio j pronta. Insistis em partir?
Ento s me resta agradecer-vos a vossa presena. Muito
obrigado, meus senhores. Boa noite! Tragam mais tochas para
aqui! Ento toca a deitar. Por minha f, rapaz, que se vai
fazendo tarde. Vou descansar.

(Saem todos menos JULIETA e a AMA.)

JULIETA. - Vem c,  ama. Quem  aquele cavalheiro?
AMA. -  o filho e herdeiro do velho Tibrio.
JuLIETA. - E aquele que vai agora a sair?
AMA. - Esse parece-me que  o jovem Petrcio.

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JuliETA. - E aquele que o segue e que no quis danar?
AMA. - No sei.
JULIETA. - Vai perguntar o seu nome. - Se  casado, o meu
tmulo ser o meu leito nupcial.
AMA. - Chama-se Romeu e  um Montecchio, filho nico do
vosso grande inimigo.
JULIETA. - O meu nico amor nascer do meu nico dio! Vi-o
demasiado cedo sem o conhecer, e conheci-o demasiado tarde.
Que amor prodigioso nasceu em mim para ter de amar um inimigo
detestado!
AMA. - O que  isso? O que  isso?
JULIETA. - So uns versos que aprendi agora mesmo com um dos
meus pares.

(Uma voz de dentro chama: JULIETA!)
AMA. - L vamos, l vamos! Despachemo-nos, que j se foram
todos os convidados.

(Saem. Entra o CoRo.)

Coro. - Agora um velho amor agoniza em seu leito de morte, e
nova afeio aspira a ser sua herdeira. Essa beleza pela qual
o amor suspira e queria morrer, comparada com a terna Julieta,
perdeu o seu encanto. Agora Romeu ama e  amado; ambos esto
enfeitiados pelo encanto dos olhares. Mas ele tem de
desabafar as suas mgoas com a sua suposta inimiga e ela de
preservar dos terrveis arpus a doce isca do amor. Sendo ele
considerado inimigo, ser-lhe- impossvel dar livre curso s
juras que os amantes costumam trocar. Quanto a ela, do mesmo
modo palpitante de amor, ter ainda menos meios de poder
encontrar em qualquer parte o seu amado. Mas a paixo
dar-lhes- fora e o tempo ocasio de se encontrarem,
compensando extremos perigos com extremas delcias. (Sai.)

Acto II

Cena I

- Verona. Um caminho ao longo do muro
do jardim de Capuleto

(Entra ROMEU.)

RoMEu. - Poderei eu ir mais alm, quando o meu corao est
aqui? Volta para trs, estpido barro, e procura o centro da
tua vida. (Escala o muro e salta para dentro.)

(Entram BENVLIO e MERCCIO.)

BEnvlIo. - Romeu! Primo Romeu!
MERCCIo. - Ele  prudente; por minha vida que se foi
deitar.
BENvLIo. - Escapou-se por este lado e saltou o muro do
jardim. Ora chama por ele, meu bom Merccio.
MERCCIo. - Vou mas  esconjur-lo. Romeu! Capricho!
Loucura! Paixo! Amor! Aparece na forma dum suspiro! Dize um
verso e ficarei satisfeito! Diz apenas: "Ai de mim!" Faze
ento rimar "amor" com flor". Dize uma palavra amvel  minha
comadre Vnus; d um diminutivo ao seu filho e cego herdeiro,
Ado Cupido, que disparou to certeiramente quando o rei da
Coftua se apaixonou pela mendiga. Ele no ouve; no se mexe.
Coitado, est morto;  preciso esconjur-lo. Eu te esconjuro:
pelos olhos brilhantes da Rosalina, pela sua alta fronte,
pelos seus lbios rubros, pelo seu lindo p, perna bem feita,
trmula coxa e domnios que lhe so adjacentes, aparece-nos
sob a tua prpria forma!
BENVLIO. - Se ele te ouve, vai zangar-se.
MERCCIo. - Isto no o pode fazer zangar. O que o poderia
fazer zangar seria evocar um esprito de qualquer natureza
estranha no crculo da sua amada, deixando-o ali ficar at que
ela o abatesse e o fizesse desaparecer esconjurando-o. Isso
seria uma ofensa. A minha invocao, porm,  leal e honesta,
e, em nome da sua amada,  ele s que eu esconjuro a aparecer.
BENvLio. - Vamo-nos embora. Ele escondeu-se a entre essas
rvores, para fazer companhia  hmida noite. O seu amor 
cego, e por isso s Lhe convm o escuro.
MERCCIO. - Se o amor  cego, no pode acertar no alvo. 
capaz de estar para a sentado debaixo dalguma nespereira,
desejando que a sua amada fosse essa espcie de fruto a que as
raparigas chamam nspera quando esto sozinhas. Oh, Romeu, se
ela o fosse!... Se ela fosse essa nspera madurinha e tu uma
pra suculenta... Boas noites, Romeu. Vou-me deitar. Esta cama
ao ar livre  fria demais para eu dormir. Vamo-nos embora?
BENvLIo. - Vamos porque  em vo que se procura quem no
quer ser encontrado.

(Saem.)

Cena II

- Jardim de Capuleto

(Entra ROMEU.)

RoMEu. - S se ri das cicatrizes aquele que nunca sentiu uma
ferida. (JuLIEtA aparece  janela.) Mas... devagarinho! Qual 
a luz que brilha atravs daquela janela?  o oriente, e
Julieta  o Sol. Ergue-te,  Sol resplandecente, e mata a Lua
invejosa, que j est fraca e plida de dor ao ver que tu, sua
sacerdotisa, s muito mais bela do que ela prpria. No
queiras mais ser sua sacerdotisa, j que to invejosa ! As
roupagens de vestal so doentias e lvidas, e somente os
loucos as usam. Deita-as fora! Esta  a minha dama! Oh, eis o
meu amor! Se ela o pudesse saber! Est a falar!... No, no
diz nada; mas isso que importa? O seu olhar  que fala e eu
vou responder-lhe... Sou ousado demais; no  para mim que ela
fala. Duas das mais belas estrelas de todo o firmamento,
quando tm alguma coisa, a fazer, pedem aos olhos dela que
brilhem nas suas esferas at que elas voltem. Oh! Se os seus
olhos estivessem no firmamento e as estrelas no seu rosto! O
esplendor da sua face envergonharia as estrelas do mesmo modo
que a luz do dia faria envergonhar uma lmpada.

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Se os seus olhos estivessem no Cu, lanariam, atravs das
regies etreas, raios de tal esplendor que as aves cantariam,
esquecendo que era noite. Vede como ela encosta a face  sua
mo. Oh! Quem me dera ser a luva dessa mo, para poder tocar a
sua face.
JULIETA. - Ai de mim!
RoMEu. - Est a falar... Oh! Continua, anjo resplandecente!
Porque esta noite tu brilhas to esplendorosamente sobre a
minha cabea como um alado mensageiro do Cu perante o olhar
extasiado dos mortais, que escondem a ris nas plpebras ao
inclinarem-se para o contemplar quando ele perpassa por entre
as nuvens indolentes e navega no seio do ar.
JuLIETA. - Oh! Romeu, Romeu! Mas porque s tu Romeu? Renega
o teu pai, o teu nome; ou, se o no quiseres fazer, jura
apenas que me amas e deixarei eu de ser uma Capuleto.
ROMEU (aparte. - Deverei eu continuar a ouvi-la, ou
responder-Lhe?
JULIETA. -  apenas o teu nome que  meu inimigo; tu s tu
mesmo, e no um Montecchio. E que  um Montecchio? No  mo,
nem p, nem brao, nem rosto, nem qualquer outra parte que
pertena a um homem. Oh! S qualquer outro nome! O que  que
existe num nome? Aquilo a que ns chamamos rosa teria o mesmo
perfume embora lhe dssemos outro nome! Assim, Romeu, ainda
que no se chamasse Romeu, conservaria a mesma perfeio que
agora possui. Romeu, renuncia ao teu nome, e em vez dele, que
no faz parte de ti mesmo, apodera-te de mim!
RoMEu. - Aceito. Chama-me apenas teu amor, e far-me-ei de
novo baptizar. De ora avante nunca mais serei Romeu.
JULIETA. - Quem s tu que, assim protegido pela noite, vens
surpreender o meu segredo?
RoMEu. - Eu no sei que nome hei-de pronunciar para te dizer
quem sou. O meu nome, querida santa, eu prprio o odeio, por
ser para ti um inimigo. Se eu o tivesse escrito, rasg-lo-ia.
JULIETA. - Os meus ouvidos no escutaram uma centena de
palavras pronunciadas por esta voz, e contudo eu reconheo-a.
No s tu Romeu, e Montecchio?
ROMEU. - Nem uma coisa nem outra, gentil donzela, se ambas
te desagradam.

31

JLIETA. - Dize-me: como vieste tu at aqui e para qu? Os
muros do jardim so altos e difceis de escalar; e este lugar
ser para ti a morte se algum dos meus parentes te descobre
aqui.
RoMEu. - Transpus estes muros com as leves asas do amor,
porque no so as barreiras de pedra que o podem embaraar; e
o que o amor tem possibilidades de fazer ousa logo tent-lo!
Por isso mesmo, no so os teus parentes que me serviro de
obstculo.
JULIETA. - Se eles te vem, matar-te-o.
RoMEU. - Ai! H mais perigo nos teus olhos do que em vinte
das suas espadas. Basta que me olhes com ternura e ficarei
couraado contra a sua inimizade.
JULIETA. - Por nada deste mundo eu queria que te vissem
aqui.
RoMEu. - O manto da noite oculta-me aos olhos deles. Mas, se
tu me no amas, que importa que me encontrem? Seria melhor que
o dio deles pusesse fim  minha vida do que a morte tardasse
faltando-me o teu amor.
JULIETA. - Quem te ensinou este caminho?
RoMEu. - O amor encorajou as minhas pesquisas. Deu-me o seu
conselho e eu dei-lhe os meus olhos. No sou piloto; contudo,
estivesses tu to longe quanto essa vasta margem que o mar
mais remoto banha e eu aventurar-me-ia em busca de tal
tesouro.
JULIETA. - Tu sabes que a mscara da noite vela o meu rosto,
pois, se assim no fosse, verias um rubor virginal tingir-me
as faces, pelo que me ouviste pronunciar h pouco. Bem quisera
eu guardar as convenincias e negar o que disse; mas adeus
convenincias! Tu amas-me? Eu sei que vais dizer que sim, e
acreditarei na tua palavra; mas, se jurasses, podias trair o
juramento; dizem que Jpiter se ri dos perjrios dos amantes.
Oh, querido Romeu! Se gostas de mim, dize-mo lealmente; mas,
se pensas que fui muito fcil de conquistar, franzirei as
sobrancelhas, serei cruel e dir-te-ei: "No!", para te dar
ensejo a que me faas a corte. Doutro modo nem por todo o
mundo o farei. A verdade, belo Montecchio,  que estou
apaixonada, e por isso talvez julgues leviana a minha conduta;
mas acredita, meu senhor, que me hei-de mostrar mais fiel do
que aquelas que sabem melhor afectar reserva. Confesso que
teria sido mais reservada se tu no tivesses surpreendido h
pouco a confisso apaixonada do meu amor.

32 33

Perdoa-me, pois, e no atribuas a um amor leviano esta
fraqueza que a noite escura te permitiu descobrir.
RoMEu. - Senhora, eu juro pela Lua sagrada, que coroa de
prata os cimos de todas estas rvores de fruto...
JULIETA. - Oh! No jures pela Lua, essa Lua inconstante que
todos os meses muda de figura, ao rodar na sua rbita. Tenho
medo de que o teu amor se torne to inconstante como ela...
RoMEu. - Porque hei-de ento jurar?
JULIETA. - No jures por coisa alguma. Ou, se quiseres, jura
pela tua graciosa pessoa, que  o deus da minha idolatria, e
eu acreditar-te-ei.
RoMEu. - Se o amor profundo do meu peito...
JULIETA. - Bem, no jures. Embora a minha alegria de te ver
seja grande, no sinto alegria alguma nesta noite com o teu
juramento.  demasiado brusco, demasiado imprevisto e
repentino, demasiado semelhante ao relmpago, que desaparece
antes que se possa dizer: Ele brilha! Boa noite, querido! Este
amor em boto, amadurecido pela brisa do Estio, talvez se
transforme em flor esplndida no nosso prximo encontro. Boa
noite! Oxal que a paz e calma deliciosas que enchem o meu
peito possam tambm encher o teu corao.
RoMEu. - Oh! Vais-me deixar assim, sem me concederes mais
nada?
JULIETA. - Que mais queres tu que te conceda esta noite?
RoMEu. - Que troques pelo meu o juramento fiel do teu amor.
JULIETA. - Dei-te o meu amor antes que tu mo pedisses; e
contudo queria t-lo ainda.
RoMEU. - Querias tirar-mo? E para qu, meu amor?
JULIETA. - S para ser generosa e dar-to outra vez. E
contudo eu s desejo o que j tenho: a minha generosidade 
to ilimitada como o mar, e to profundo como este  tambm o
meu amor: quanto mais te dou, tanto mais me fica, porque uma e
outro so infinitos. (A AMA chama de dentro.) Ouo rudo l
dentro. Adeus, meu querido amor. - J l vou, ama.S fiel,
querido Montecchio. Espera s um momento, que eu volto j.
(Sai da janela.)

RoMEu. - Oh! Noite abenoada, bendita noite! Tenho medo de
que, por ser de noite, tudo isto seja um sonho, demasiada e
deliciosamente adulador para ser real.

(JULIETA volta de novo.)

JULIETA. - Trs palavras s, querido Romeu, e boa noite. Se
a inteno do teu amor  honesta, e tem por fim o casamento,
faz-me saber, pela pessoa que eu te hei-de mandar amanh, o
lugar e a hora em que se h-de efectuar a cerimnia, e eu
deporei a teus ps todo o meu destino e seguir-te-ei, meu
senhor, atravs de todo o mundo.
AMA (de dentro). - Menina!
JULIETA. - Vou j. - Mas se as tuas intenes no so puras,
suplico-te...
AMA (de dentro). -  menina!
JULIETA. -  s um instante; vou j... - suplico-te que
acabes com os teus galanteios e me deixes entregue  minha
dor. Amanh mandarei.
RoMEu. - Assim se salve a minha alma...
JULIETA. - Mil vezes boa noite. (Sai da janela.)
RoMEu. - Noite mil vezes m, desde que Lhe falte a tua luz.
O amor corre para o amor como os rapazes ao deixarem os
livros, mas afasta-se dele com o olhar triste como o dos
rapazes que vo para a escola. (Retira-se.)
JULIETA (aparecendo de novo  janela). - Pst! Romeu, pst!
Oh! Quem me dera ter a voz do falcoeiro para fazer voltar
atrs este gentil aor! Mas a escravido  rouca e no pode
falar alto. De contrrio faria estremecer a caverna onde Eco
dorme e a sua voz area tornar-se-ia mais rouca do que a
minha, tantas vezes lhe faria repetir o nome do meu Romeu.
RoMEu. -  a minha alma que chama pelo meu nome. Que som
argentino tem de noite a voz dos amantes!  a msica mais
suave que os ouvidos podem escutar!
JULIETA. - Romeu!
ROMEU. - Meu amor!
JULIETA. - A que horas te posso mandar procurar amanh?
ROMEU. - s nove horas.
JULIETA. - No faltarei. Daqui at l vo vinte anos. J me
esqueci para que te chamei.
RoMEu. - Deixa-me ficar aqui at que tu te lembres outra
vez.

34

JuLIETA. - E eu esquec-lo-ei, para que tu fiques sempre a,
no me lembrando seno de quanto eu adoro a tua companhia.
RomEu. - E eu ficarei aqui, para que tu continues a
esquecer-te, e esquecerei qualquer outra habitao a no ser
esta.
JULIETA.. - J  quase manh. Quisera que te tivesses ido,
mas que no te afastasses mais do que a avezita - pobre
prisioneira amarrada aos grilhes - que uma criana travessa
deixa, por uns momentos, fugir da sua mo, e que, com o fio de
seda, depressa atrai a si de novo, porque Lhe quer
demasiadamente para no ter cimes da sua liberdade.
ROmeu. - Eu, eu quisera a tua avezita.
JULIETA. - Tambm eu o queria, meu amor, mas eu matar-te-ei
 fora de carinhos. Boa noite! Boa noite! A despedida  uma
to doce tristeza que continuarei a dizer boa noite" at que
seja manh. (Sai.)
RoMEu. - Que o sono desa aos teus olhos e a paz ao teu
corao. Bem quisera eu ser sono e paz para to deliciosamente
repousar. Vou daqui para a cela do meu pai espiritual para lhe
implorar o seu auxlio e confiar-lhe a minha ventura. (Sai.)

Cena III

- A cela de Frei Loureno

(Entra FREI LOURENO com um cesto.)

FREI LOURENo. - A aurora de olhos pardacentos sorri  noite
carrancuda, listrando de luz as nuvens do Levante, e a
escurido, j mosqueada e cambaleando como bria, foge da
senda do dia, traada pelas rodas chamejantes de Tit. Agora,
antes que o Sol avance com o seu olhar de fogo para acariciar
o dia e secar o hmido orvalho da noite, tenho de encher este
cesto de vimes com plantas venenosas e flores de suco
precioso. A terra, que  a me da natureza,  tambm o seu
tmulo: aquilo que a esta serve de sepulcro  o seu ventre
materno. Filhos de toda a espcie nascidos do seu ventre
encontramos ns sugando nos seus seios. A maior parte so
dotados de excelentes virtudes; nenhum h que no tenha o seu
mrito, e contudo todos so diferentes. Oh! Quo eficaz  a
graa que reside nas plantas, nas ervas, nas pedras e nas suas
qualidades reais. No h nada sobre a terra que seja to vil

35

que lhe no preste um servio especial, mas nada h tambm que
seja to bom que, desviado do seu legtimo fim, se no revolte
contra a sua verdadeira origem e no caia no mal. A prpria
virtude se transforma em vcio quando mal aplicada, e o vcio
 s vezes nobilitado pela aco. Dentro do tenro clix desta
frgil flor residem um veneno e uma virtude medicinal: porque,
quando aspirada, o seu odor regala os sentidos; mas, quando
bebida, mata-os, ao mesmo tempo que mata o corao. Duas
potncias inimigas lutam sem cessar tanto no homem como nas
plantas: graa e perversidade. Ora, quando prevalece a pior,
depressa o verme da morte vem devorar essa planta.

(Entra ROMEu.)

ROMEU. - Bom dia, Padre!
FREI LOURENO. - Benedicite! Qual  a voz matinal que to
amavelmente me sada? Oh! Meu filho!  sinal de qualquer
desordem de esprito o dizer-se to cedo adeus ao leito. O
cuidado vela constantemente nos olhos do ancio e o sono
jamais entra onde o cuidado mora. Porm, qualquer stio em que
a juventude ilesa, de crebro livre de cuidados, estenda os
seus membros, a reinar o sono dourado. Portanto, o teu
madrugar denuncia-me que foi qualquer grave perturbao que te
ps a p. Se no  este o caso (e creio que acerto), o nosso
Romeu no se deitou esta noite.
RoMEu. - Essa  que  a verdade. Porm tive um repouso muito
mais suave.
FREI LouRENo. - Deus te perdoe! Estiveste ento com a
Rosalina?
RoMEu. - Com Rosalina, meu Reverendo Padre? No! J esqueci
esse nome e toda a dor que ele me causava.
FREI LoUREno. - Ainda bem, meu filho... Mas onde estiveste
ento?
RoMEU. - Vou dizer-vo-lo antes que mo torneis a perguntar.
Fui  festa dada pelo meu inimigo, e de repente fui ferido por
algum a quem eu tambm feri. O remdio de ns ambos depende
do vosso auxlio e do vosso sagrado mister. Eu no abrigo dio
algum, santo homem, pois que intercedo tambm pelo meu
adversrio.

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FREI LOURENO. - Fala claramente, meu filho, e explica-te
sem rodeios, porque uma confisso equvoca s pode obter uma
equvoca absolvio.
RomEu. - Para falar claramente, dir-vos-ei ento que amo
profundamente a encantadora filha do rico Capuleto. Dei-lhe o
meu amor, como ela me deu o seu. Para que seja completa a
nossa unio falta apenas que vs nos unais pelo santo
matrimnio. Quando, onde e como nos encontrmos, ammos e
trocmos os nossos juramentos dir-vo-lo-ei quando passearmos
juntos; mas antes de tudo peo-vos que consintais em nos casar
ainda hoje.
FREI LOURENo. - Bendito seja o nosso So Francisco! Que
mudana foi essa? Ento a Rosalina, que tu tanto amavas, foi
assim to rapidamente esquecida? Neste caso, o amor dos jovens
no reside verdadeiramente no corao, mas sim nos olhos.
Jesus! Maria! Que torrentes de lgrimas inundaram as tuas
faces por causa de Rosalina! Quanta gua salgada vertida em
vo para sazonar um amor que nem sequer conservou o gosto
dela! O Sol no dissipou ainda no cu as nuvens dos teus
suspiros e os teus antigos lamentos ressoam ainda aos meus
velhos ouvidos. Olha, h ainda na tua face o vestgio duma
antiga lgrima mal enxuta. Se tu ento eras tu mesmo, e essas
dores eram as tuas, tu e essas dores sereis todos para
Rosalina. Como pudeste tu mudar assim? Nesse caso, pronuncia
esta sentena: as mulheres podem ser frgeis quando os homens
to pouca fora tm.
RomEu. - Muitas vezes me repreendestes por causa do meu amor
por Rosalina...
FREI LOURENO. - O que eu censurava era a tua idolatria, no
o teu amor, meu filho.
RomEu. - E aconselhastes-me a sepultar esse amor.
FREI LouRENo. - Mas no numa cova em que, enterrando um,
fizesses surgir outro.
RomEu. - No me ralheis, peo-vos; aquela que amo agora
paga-me amabilidades com amabilidades e amor com amor; a outra
no fazia isso.
FREI LOURENO. - Oh! Ela bem sabia que o teu amor recitava
de cor a lio, antes mesmo de saber soletrar. Mas vem,
inconstante, vem comigo. H uma razo que me decide a
atender-te. Esta unio poder talvez transformar em pura
afeio o dio das vossas duas casas.
RomEu. - Partamos ento, que eu estou com muita pressa.

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FREI LoUREno. - Devagar e com prudncia, pois que quem
muito corre muito se arrisca a cair.

(Saem.)

Cena IV

- Uma rua

(Entram BENVLIO e MERCCIO.)

MERccIo. - Onde diabo se teria metido esse Romeu? No teria
recolhido a casa esta noite?
BEnvLio. - A casa do pai, no. Eu falei com o criado dele.
MERccio. - Ah! Essa plida donzela de corao de pedra,
essa Rosalina, atormenta-o de tal maneira que ele h-de acabar
por endoidecer.
BENvLIo. - Tebaldo, o parente do velho Capuleto, mandou-lhe
uma carta a casa do pai.
MERccIo. - Cartel de desafio, por vida minha!
BENvLio. - O Romeu h-de responder-lhe.
MERccIo - Qualquer homem que saiba escrever pode responder
a uma carta.
BENvLIo. - Ao autor da carta  que ele responder:
provocao com provocao.
MERCcIo. - Coitado! Pobre Romeu! Ele est j morto!
Apunhalado pelo olhar negro duma branca donzela, com os
ouvidos fustigados por um canto de amor, traspassado at ao
mais ntimo do corao pela frecha do cego archeiro...  l
homem para enfrentar Tebaldo?
BENvLIo. - O qu? E quem  ento Tebaldo?
MERccIo. - Muito mais que o prncipe dos gatos. Oh!  o
corajoso capito das leis dos pontos de honra. Bate-se com as
mesmas mincias com que tu cantas uma ria anotada, guardando
tempos, intervalos e compassos; descansa o tempo duma mnima:
uma, duas e... a terceira no teu peito.  o verdadeiro
carniceiro dos botes de seda, o duelista dos duelistas;  um
fidalgo da mais alta categoria, um verdadeiro duelista. Oh!
Que imortal passado! Que punto reverso Que hai,!
BENVLIO. - O qu?

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MERCCIo. - M peste d nestes patuscos, nas suas afectaes
grotescas e na sua nova acentuao. Por Deus! Que boa lmina!
Que belo homem! Que esplndida rameira! No  uma coisa
lamentvel que andemos assim a ser apoquentados por estas
moscas estrangeiras, por esses figurinos de modas, por esses
pardonnez-moi to apegados s novas formas que no podem
sentar-se comodamente nos nossos velhos escabelos? Que farto
estou dos seus bien!... Ah! Os seus bien!"
BENvLIo. - A vem o Romeu! A vem o Romeu!
MERCCIO. - Sim, mas no traz mais do que os ossos. Seco
como um arenque defumado! Oh! Carne, carne, como tu te
transformaste em peixe! A esta hora est ele partidrio da
lrica Petrarca. Laura, comparada  sua dama, no passa duma
cozinheira que teve a sorte de possuir um amante que soube
melhor celebr-la nas suas rimas. Dido foi uma desmazelada,
Clepatra uma cigana, Helena e Hero miserveis prostitutas,
Tisbe uns olhos de gara ou coisa parecida, mas em todo o caso
sem nada de especial...

(Entra ROMEU.)

- Senhor Romeu, bonjour; para a vossa cala francesa s pode
haver uma saudao francesa. Ontem  noite tambm foi desta
maneira que tu te despediste de ns.
ROMEU. - Bons dias para ambos. De que maneira?
MERccIo. -  francesa, pois que desapareceste sem dizer
adeus  gente.
RoMEU. - Desculpa, meu bom Merccio. Tinha um assunto a
tratar que era de grande importncia; e em tais casos bem pode
um homem violar as leis da cortesia.
MERCCIO. - Queres tu dizer que um caso como o teu obriga um
homem a curvar-se...
RoMEU. - ... E a fazer reverncia.
MERCCIO. - Disseste bem.
RoMEU. -  a explicao mais corts.
MERCCIO. - Fica ento sabendo que eu sou a rosa da
cortesia.
ROMEU. - Queres tu dizer a flor...
MERCCIO. - Seja.
RoMEU. - Nesse caso tenho eu os escarpins bem floridos.

39

MERCCIO. - Muito bem dito, sim senhor! Continua com esse
gracejo at que os teus escarpins estejam gastos; e, mesmo
assim, quando eles j no tiverem solas, ficar ainda em bom
uso o teu gracejo, nico e sem par.
RoMEU. - Oh! Gracejo nico e sem par pela sua estupidez.
MERCCIO. - Vem separar-nos, bom Benvlio, que os meus
espritos desfalecem.
RoMEU. - Chicoteia-os e espicaa-os; de contrrio gritarei:
vitria!
MERCcIo. - Se  para a corrida dos patos-bravos que me
desafias, recuso-me, porque h mais patos-bravos em cada um
dos teus sentidos do que em todos os meus cinco. Ou julgars
porventura que farei de pata?
RoMEU. - Se eu julgasse que farias dalguma coisa, seria de
pata, com efeito.
MERCcIo. - Vou morder-te a orelha por causa desse gracejo.
RoMEU. - No, que uma boa pata no morde.
MERCCIO. - O teu esprito  como o dessas mas cidas que
do um molho muito picante.
RoMEU. - E esse molho no  esplndido quando servido com
pato assado?
MERccIo. - Oh! Que esprito elstico!  como pele de
cabrito, que duma polegada se faz um cvado!
RoMEU. - Pois essa elasticidade emprest-la-ei ao pato em
questo que ficar logo uma grande pata.
MERcCIo. - Ento? No  isto melhor do que andar para a a
suspirar de amor? Ora eis-te socivel, eis-te o verdadeiro
Romeu; agora s o que s, segundo a arte e segundo a natureza;
porque esse estpido amor  semelhante a um tolinho que,
deitando a lngua de fora, corre dum lado para o outro 
procura dum buraco onde esconder a insgnia da sua loucura.
BEnvLIo. - Espera l, espera l!
MERCCIO. - Queres que eu pare a minha histria na parte
mais interessante?
BENVLIO. - De contrrio nunca mais a acabarias.
MERccIo. - Ests enganado: ela seria curta, pois eu estava
j no fim e no tinha teno alguma de alargar mais a
conversa.
RoMEU. - Oh! Que bela embarcao!

(Entram a AMA e PEDRO.)

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MERCCIO. - Uma vela, uma vela!
BENvLIo. - Duas, duas! Uma camisa de homem e um mantu.
AMA. - Pedro!
PEDRo. - Aqui estou.
AMA. - D-me o leque, Pedro.
MERcCIo. - D-lho l, bom Pedro; e que esconda nele a cara,
pois que o leque sempre  mais bonito.
AMA. - Deus vos d bons dias, meus senhores.
MERCCIo. - E boa tarde a vs, gentil senhora.
AMA. - J boas tardes?
MERCCIo. - Posso dizer-vos que sim, pois que o ndex
libertino do relgio est agora sobre o meio-dia.
AMA. - O Diabo vos leve! Que espcie de homem sois vs?
RoMEu. -  um homem que Deus criou para se prejudicar a si
prprio, minha senhora.
AMA. - Muito bem dito, sim senhor! Para se prejudicar a si
prprio, no foi o que disseste?... Meus senhores, algum de
vs saber indicar-me onde posso encontrar o jovem Romeu?
ROMEU. - Posso eu; mas o jovem Romeu ser mais velho quando
o encontrardes do que quando vos pusestes a procur-lo: sou eu
o mais jovem desse nome,  falta de pior.
AMA. - Muito bem.
MERCCIo. - O qu? O pior  que ela acha muito bem? Bem
discorrido, palavra de honra. Atilada, muito atilada.
AMA. - Se sois vs, senhor, tenho um segredo a confiar-vos.
BENvLIo. - Vai convid-lo para alguma ceia...
MERCCIO. -  uma alcoviteira,  uma alcoviteira! Eh! Eh!
ROMEU. - Ento que h?
MERCCIo. - No  lebre, senhor; a no ser que seja lebre de
empado j ranoso e bolorento antes de ser comido. (Canta.)
 prato permitido na Quaresma Uma lebre ranosa e bolorenta,
Mas, se a Igreja permite que se coma, Chega bem p'ra fartar
mais de noventa. Vais para casa do teu pai, Romeu? Ns vamos
l jantar.

41

ROMEU. - J vou ter convosco.
MERCCIo. - Adeus, velha senhora, adeus. (Canta.) Senhora,
senhora, senhora!

(Saem MERCCIO e BENVLIO.)

AMA. - Apre! Adeus! Por favor, dizei-me, senhor, quem era
este insolente tendeiro que to bem sortido estava de
velhacarias?
ROMEu. -  um fidalgo, ama, que gosta de se ouvir falar a si
prprio e que diz mais coisas num minuto do que ouve num ms.
AMA. - Oh! Que se atrevesse ele a dizer fosse o que fosse
contra mim que eu o chamaria  ordem, ainda que ele fosse mais
forte do que  ou do que vinte peralvilhos da sua espcie. Se
eu no tivesse fora para isso, encontraria quem as tivesse.
Ora o insolente! Eu no sou nenhuma das suas rameiras, nenhuma
das suas compinchas. (A PEDRO.) E tu ficas-te para a quieto e
consentes que o primeiro malandro que aparea se sirva de mim
a seu prazer?
PEDRO. - Eu no vi que algum se servisse de vs a seu
prazer. Se o tivesse visto, garanto-vos que teria logo puxado
da espada. Eu desembainho-a to depressa como qualquer outro,
a questo  que veja ocasio para uma boa contenda e que tenha
a lei a meu favor.
AMA. - To verdade como eu estar diante de Deus que estou
to vexada que toda eu tremo!... Ora o insolente! Peo-vos uma
palavra, senhor. Como vos disse, a minha jovem ama
encarregou-me de vos procurar... O que ela me recomendou que
vos dissesse guardo-o para mim... Mas antes de mais nada
deixai-me dizer-vos que, se tendes a inteno de a levardes ao
paraso dos doidos, como  costume dizer-se, seria uma aco
indigna, porque a menina  muito nova. E portanto, se andais a
jogar com ela com um pau de dois bicos, francamente, isso
seria uma m aco, que se no faz a uma donzela, e seria uma
conduta muito mesquinha.
ROMEU. - Ouve, ama; recomenda-me  tua senhora, e juro-te...
AMA. - Que excelente corao! Assim se salve a minha alma,
como l lho direi. Ai, senhor, senhor! Como ela vai ficar
contente!

42

Romeu. - Que vais tu dizer-lhe, ama? Tu no me ouves!
AMA. - Dir-lhe-ei, senhor, que vs jurastes, o que a meu
entender  uma promessa de fidalgo.
RoMEu. - Dize-lhe que arranje qualquer meio de se ir
confessar esta tarde;  na cela de Frei Loureno que ela ser
confessada e casada. Toma l pelo teu trabalho.
AMA. - De nenhum modo, meu senhor, nem um real!
RomEu. - Ento? Se eu te digo que aceites...
AMA. - Esta tarde, senhor? Bem; ela l estar.
RomeU. - E tu, boa ama, ficars  espera atrs do muro do
mosteiro. A essa hora o meu criado ir ter contigo e
levar-te- uma escada de cordas pela qual eu devo subir, no
segredo da noite, at ao mais alto degrau da minha ventura.
Adeus. S fiel, e eu saberei recompensar-te. Adeus!
Recomenda-me  tua ama.
AMA. - Que o Deus que est no Cu vos abenoe! Mas...
escutai-me, senhor.
ROMEU. - Que  que queres, ama?
AmA. - O vosso criado  discreto? Sem dvida conheceis o
provrbio: segredo de trs o Diabo o fez.
RoMEu. - Garanto-vos que o meu criado  firme como ao.
AMA. - Muito bem, meu senhor; a minha ama  a criatura mais
encantadora... Senhor! Senhor! Quando ela mal sabia palrar...
Oh! H na cidade um fidalgo, um tal Pris, que bem queria
conquistar a fortaleza; mas aquela boa alma preferia ver um
sapo, um verdadeiro sapo, a v-lo a ele. s vezes fao-a
zangar dizendo-Lhe que Pris  o homem que melhor lhe convm;
ah! mas garanto-vos que quando Lhe digo isto ela se faz to
branca como o mais branco linho deste mundo. Rosmaninho e
Romeu no comeam pela mesma letra?
RoMEu. - Pois comeam, ama, ambos comeam por um R. Mas a
que propsito vem essa pergunta?
AMA. - Ah! Vs dizeis com um ar de troa. Isso  o nome dum
co; um R  bom para o... no; eu estou certa de que o vosso
nome comea por outra letra; e ela diz coisas to lindas a
respeito de vs e do rosmaninho que at vos faria bem
ouvi-las.
RoMEu. - Recomenda-me  tua ama.
AMA. - Pois sim; mil vezes. (Sai RoMEU.) Pedro!

43

PEDRo. - Aqui estou. AMA. - Vai  frente, e depressa!

(Saem.)

Cena V

- O jardim de Capuleto

(Entra JULIETA.)

JLIETA. - Estavam a dar nove horas quando eu mandei a ama;
ela prometeu-me que dentro de meia hora estaria de volta,
mas... talvez o no tivesse podido encontrar!... Mas no...
Oh!  que ela  coxa! Os mensageiros do amor deviam ser como
os pensamentos, que so dez vezes mais velozes do que os raios
do Sol, que, passando por sobre as colinas tenebrosas, obrigam
as sombras a fugir.  por isso que o carro do Amor  puxado
por pombas de asas ligeiras, e por isso tambm que Cupido tem
asas velozes como o vento. J o Sol est no ponto culminante
da sua jornada de hoje, e das nove ao meio-dia trs longas
horas se passaram; contudo, ainda no chegou. Tivesse ela uma
afeio e o sangue ardente da mocidade que seria mais veloz do
que uma bala. As minhas palavras lan-la-iam como uma flecha
para o meu amor, e ele remeter-me-ia do mesmo modo. Mas esta
gente velha a maior parte das vezes parece morta;  inerte,
vagarosa, pesada e plida como chumbo. (Entram a AMA e PEDRo.)
Oh! Meu Deus, at que enfim que ela a vem... Oh! Ama da minha
alma, que novas me trazes? encontraste-o?... Manda embora o
teu criado.
AMA. - Pedro, espera ao porto.

(PEDRO sai.)

JULIETA. - Ento, querida ama? Oh! Senhor! Porque  que
ests to triste? Se as tuas notcias so ms, di-las, muito
embora alegremente; se so boas, estragar-lhes-s a msica
dizendo-mas com uma cara to feia.
AMA. - Estou muito cansada, deixa-me respirar um pouco...
Tenho os ossos modos... Que carreira tive de dar...

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JULIETA. - De bom grado te daria os meus ossos em troca das
tuas notcias. Ento? Vamos, peo-te que fales, minha ama
adorada, fala.
AMA. - Jesus, mas que pressa! No poder esperar um
instante? No v que estou sem flego?
JULIETA. - Como  que ests sem flego, se o tens para me
dizeres que ests sem ele? As desculpas que tu ds para essa
demora ainda so mais extensas do que o relato que no queres
fazer. So as notcias boas ou ms? Anda, responde a isto.
Dize-me numa palavra e eu esperarei pelos pormenores. Ento?
Faze-me a vontade: so boas ou ms?
AMA. - Bem!... A menina fez uma escolha muito fraca! No
sabe escolher um homem! Romeu, um homem? No! Embora a cara
dele seja melhor do que a de qualquer outro, embora as suas
pernas sejam mais bem feitas do que as de todos os homens, e
pelo que diz respeito  mo, ao p e  altura no haja grande
coisa a dizer-lhe, tudo isso  incomparvel... Ele no  o
cmulo da cortesia, mas garanto-vos que  meigo como um
cordeirinho... Segue l o teu caminho, pequena, e que Deus
seja servido... J se jantou c em casa?
JULIETA. - No, no. Mas tudo isso j eu sabia. Que diz ele
do nosso casamento? Sim, que diz ele a esse respeito?
AMA. - Oh! Meu Deus! Que dor de cabea que eu tenho! Que dor
de cabea! Bate-me como se estivesse partida em vinte
pedaos... As costas, do outro lado... Oh! As minhas queridas
costas! Diabos a levem mais quando me mandou correr montes e
vales.
JULIETA. - Acredita que tenho pena de que sofras assim, mas,
querida ama, que diz o meu amor?
AmA. - O vosso amor diz, como honrado, corts, terno, belo e
virtuoso que ... Onde est a senhora sua me?
JULIETA. - Minha me? Est em casa, onde  que havia de
estar? Olha que pergunta me fazes! O vosso amor diz como um
fidalgo... onde est a vossa me?
AmA. - Oh! Virgem Nossa Senhora, como a menina ferve em
pouca gua. Se  essa a cataplasma que aplica aos meus doridos
ossos, pode ser a menina quem de futuro leve os recadinhos.
JULIETA. - No sei para que  esse barulho. Ora vamos: que
disse Romeu?
AMA. - A menina j tem licena para ir confessar-se hoje?
JULIETA. - J.

45

AMA. - Ento, correi  cela de Frei Loureno, que l vos
espera um marido que vos tornar sua esposa! Olhem o maroto do
sangue como vos vem s faces. Depressa elas iro ficar
escarlates  menor notcia. Correi  igreja; eu tenho de ir
por outro lado procurar a escada pela qual o vosso bem-amado
h-de trepar ao ninho duma avezita, quando for noite escura.
Eu  que sou a escrava e sou eu que mourejo para vosso prazer.
Mas j esta noite sereis vs que carregareis o fardo. E agora
vou jantar. Andai! Ide depressa  cela.
JuLIETA. - Depressa, depressa  suprema felicidade!...
Adeus, minha boa ama.

(Saem.)

Cena VI

- Cela de Frei Loureno

(Entram FREI LOURENO e ROMEU.)

FREI LOURENO. - Oxal os Cus sorriam sobre este acto
sagrado, para que o futuro o no faa pagar com desgostos.
ROmEU. - Amen! Amen! Mas que venham todas as dores
possveis, que elas no podero contrabalanar a alegria que
me d um s minuto passado com a minha amada. Une somente as
nossas mos, pronunciando as palavras sagradas, e que a morte,
devoradora do amor, venha fazer aquilo de que a sua audcia
for capaz. Para mim j  muito o poder chamar-lhe minha.
FREI LOURENO. - Estes transportes violentos tm sempre
violentos fins e morrem no meio do seu triunfo como a chama e
a plvora que se consomem num beijo. O mel mais doce torna-se
enjoativo pela sua prpria doura; o prov-lo destri o
apetite. Amai, pois, moderadamente; s assim o amor consegue
durar. To tarde chega quem muito corre como quem caminha
devagar. (Entra JULIETA.) A vem ela. Oh! Jamais um p to
leve gastar o slex eterno! Qualquer amante poderia caminhar,
sem cair, sobre os mais tnues fios de aranha que a brisa do
Vero faz oscilar lentamente, to leve  a sua iluso!
JULIETA. - Boas tardes, meu Reverendo Confessor!

46

FREI LoURENo. - Romeu te agradecer por mim e por ele,
minha filha.
JuLIETA. - Tambm lhe quero dar a ele as boas-tardes, pois
de contrrio seriam os seus agradecimentos imerecidos.
RoMEU. - Ah! Julieta! Se a tua alegria  to grande como a
minha, e se mais habilmente do que eu a podes pintar, perfuma
ento com o teu hlito o ambiente que nos cerca, e que a
deliciosa msica da tua voz exprima a felicidade que as nossas
almas sentem com este encontro to querido!
JULIETA. - O sentimento  mais rico em impresses do que em
palavras;  orgulhoso da sua essncia e no de ornatos; bem
pobres so aqueles que podem contar as suas riquezas, mas o
meu amor chegou a um tal excesso que no sei avaliar metade
dos meus tesouros.
FREI LOURENO. - Vinde, vinde comigo, que acabaremos o mais
depressa possvel. Com a vossa permisso, no vos deixarei
ss, at que a Santa Igreja vos incorpore numa s pessoa.

(Saem.)

Acto III

Cena I

- Verona. Praa pblica

(Entram MERCCIO, BENVLIO, um PAJEM e criados.)

BENvlIo. - Peo-te, meu caro Merccio, que nos retiremos: o
dia est quente, os Capuletos saram, e, se os encontramos,
no poderemos evitar uma rixa, pois nestes dias de calor o
sangue ferve furiosamente.
MERcCIo. - Lembras-me um desses folgazes que, ao franquear
os umbrais duma taberna, lanam a espada sobre a mesa,
dizendo: "Deus queira que eu no precise de ti!" mas que, mal
o segundo copo comea a produzir efeito, a desembainham sem
necessidade contra o moo da taberna.
BENvLIo. - E eu sou como esses?
MERCCIo. - Anda, anda, que no teu gnero s to esquentado
como qualquer brigo da Itlia.  menor emoo arrebatas-te, e
no h mingum que o faa mais facilmente do que tu.
BENVLIO. - Como assim?
MERCCIo. - Sim, se houvesse dois homens como tu, depressa
no haveria nenhm, porque um mataria o outro. Tu?! Mas tu s
capaz de questionar com um homem pelo facto de ele ter na
barba um plo a mais ou a menos do que tu! Questionarias com
um homem que quebra avels pela simples razo de teres os
olhos da cor das avels. S uns olhos como os teus descobriram
nisso uma ofensa! A tua cabea est to cheia de querelas como
um ovo o est de alimento, o que no impede que ela esteja oca
como um ovo quebrado  fora de ser batida em todas as
questes. J altercaste com um homem que, tossindo na rua,
acordou o teu co, que dormia ao sol. No tiveste um dia uma
disputa com um alfaiate por ele levar vestido um gibo novo
antes da Pscoa e com um outro por atar uns sapatos novos com
fitas velhas? E s tu que me vens pregar contra questes!...

48

BEnvLIo. - Se eu fosse to barulhento como tu, venderia a
propriedade pura e simples da minha vida ao primeiro comprador
que me assegurasse uma hora e um quarto de existncia.
MERccIo. - A propriedade pura e simples! Que louco!
BENvLio. - Pela minha cabea que a vm Capuletos.
MERccio. - Pelas solas dos meus ps que no me ralo nada
com isso.

(Entram TEBALDO e outros.)

TEBALDo. - Segui-me de perto, que eu vou falar-lhes. Boa
tarde, meus senhores! Queria uma palavra a um de vs.
MERcCIo. - S uma palavra e s a um de ns? Acompanhai-a de
qualquer outra coisa; dai uma palavra e uma estocada.
TEBALDO. - Achar-me-eis pronto para isso, senhor, se me
fornecerdes ocasio.
MERcCIo. - No podereis encontrar ocasio sem que vo-la
forneam?
TEBALDO. - Merccio, tu ages de acordo com Romeu...
MERccIo. - De acordo, como? Tomais-nos por menestris? Se
assim , prepara-te para ouvires apenas discordncias. Eis o
arco do meu violino que vos h-de fazer danar. Pelas chagas
de Cristo!... De acordo?
BENvLio. - Estamos a falar num lugar pblico muito
frequentado; retiremo-nos para qualquer stio escuso, ou
explicai-nos friamente a razo dos vossos agravos; ou ento
separemo-nos. Aqui todos os olhos se fixam em ns.
MERCcio. - Os olhos dos homens foram feitos para ver; por
isso deixai-os fixar-nos. No haver vontade humana que me
faa arredar daqui.
TEBALDO. - Bem! Que a paz seja convosco, meus senhores! A
vem o meu homem.

(Entra ROMEU.)

MERCCIO. - Que me enforquem, senhor, se aquele usa a vossa
libr. Saltai em campo e ele vos seguir! S nesse sentido
poder Vossa Senhoria chamar-lhe vosso homem.
TEBALDo. - Romeu, a estima que eu tenho por ti no me d
outro termo melhor do que este: s um canalha.

49

RoMEu. - Tebaldo, as razes que eu tenho para te estimar
fazem-me desculpar a insolncia de tal saudao. Eu no sou
canalha. Por isso, adeus. Vejo que me no conheces.
TEBALDo. - Isso no desculpa as injrias que me fizeste. Por
isso, volta-te e em guarda!
RoMEu. - Protesto. Eu nunca te injuriei. Tenho at por ti
mais afeio do que possas imaginar at ao dia em que
conheceres a causa da minha simpatia. Por isso, nobre Capuleto
(e este nome -me to caro como o meu prprio), d-te por
satisfeito.
MERccIo. - Oh, fria, desonrosa, ignbil submisso. Uma
estocada decide tudo. (Desembainha.) Tebaldo, matador de
ratos, quereis dar uma volta?
TEBALDO. - Que quereis de mim?
MERccIo. - Nada, bom rei dos gatos; nada, a no ser uma das
vossas nove vidas, da qual farei o que me apetecer; quanto s
outras oito, zurzi-las-ei depois conforme a vossa conduta a
meu respeito. Quereis puxar a vossa espada pelas orelhas?
Apressai-vos, ou, de contrrio, far-se- a minha sentir nas
vossas, antes que a tenhais fora da bainha.
TEBALDo (desembainhando). - Pronto, s vossas ordens.
RoMEu. - Bom Merccio, embainha a espada.
MERccIo. - Vamos, senhor, o vosso melhor bote.

(Batem-se.)

RoMEu. - Desembainha, Benvlio, e obriguemo-los a baixar as
espadas. Tende vergonha, meus senhores, e evitai este
escndalo! Tebaldo! Merccio! O Prncipe proibiu expressamente
estas rixas nas ruas de Verona. Basta, Tebaldo! Bom Merccio!

(Saem TEBALDO e os seus sequazes.)

MERccIo. - Estou ferido. M peste leve as vossas duas
casas! J tenho a minha conta... Ele foi-se embora sem a menor
ferida?
BENVLIO. - O qu? Ests ferido?
MERccIo. - Sim, sim; uma arranhadura, uma arranhadura;
apre, mas chega... Onde est o meu pajem? Vai-me chamar um
cirurgio, meu vadio.

50

(Sai o PAJEM.

ROmEU. - Coragem, amigo; a ferida no pode ser perigosa.
MERcCIo. - No, ela no  to profunda como um poo nem to
larga como a porta duma igreja; mas chega e produzir o seu
efeito. Vinde ter comigo amanh e encontrar-me-eis um homem
srio. Garanto-vos que j estou apimentado para este mundo. M
peste leve as vossas duas casas!... Oh! Chagas de Cristo!
Ento um co, um rato, um gato, arranhar de morte um homem
como eu. Um fanfarro, um maroto, um malandro, que se bate por
regras de aritmtica! Por que diabo vos meteste de permeio?
Recebei o golpe por baixo de vosso brao.
RoMEu. - Julguei que fazia bem.
MERCCIo. - Ajuda-me at qualquer casa, Benvlio, ou vou
desfalecer... A peste leve as vossas duas casas! Elas fizeram
de mim alimento para vermes... Oh! Recebi a minha conta, e bem
funda! As vossas casas...

(Saem MERCCIO e BENVLIO.)

RoMEU. - Este fidalgo, prximo parente do Prncipe e meu
ntimo amigo, recebeu por minha causa este mortal ferimento. A
minha honra est manchada pelo ultraje de Tebaldo, Tebaldo,
que h uma hora  meu primo!... Oh, minha querida Julieta, a
tua beleza efeminou-me e enfraqueceu a tmpera de ao da minha
coragem.

(Reentra BENVLIO.)

BENvLIo. - Oh, Romeu, Romeu! O bravo Merccio morreu! Esse
esprito valente, que ainda h to pouco tempo desprezava a
Terra, subiu aos Cus.
RoMEU. - Este dia far pesar a sua negra fatalidade sobre
muitos outros dias. Este comea a desgraa que outros ho-de
acabar.
BENvLIo. - A vem outra vez o furioso Tebaldo.
RoMEu. - Ele vivo e triunfante e Merccio morto! Sobe aos
Cus, circunspecta indulgncia, e tu, furor de olhar de fogo,
s agora o meu guia!

(Reentra TEBALDO.

51

Agora, Tebaldo, retoma para ti o nome de canalha com que h
pouco me insultaste: a alma de Merccio paira ainda, a curta
distncia, sobre as nossas cabeas e espera que a tua lhe v
fazer companhia.  preciso que tu ou eu, ou ns ambos, nos
juntemos a ele.
TEbALDo. - Tu, miservel, que eras seu camarada aqui em
baixo, sers tu que partirs com ele.
RoMEu. - Esta  que o h-de decidir.

(Lutam. TEBALDo cai.)

BENvLIo. - Foge, Romeu, vai-te embora! Os Veroneses esto
exaltados e Tebaldo est morto... No fiques a pasmado. O
Prncipe vai condenar-te  morte se s preso... Foge daqui!
Anda depressa, foge!
ROMEu. - Oh! Sou o joguete do destino?
BENvLIo. - Ento? Porque esperas?

(Sai RomEu. Entram cidados.)

1 CIDADO. - Para que lado fugiu esse que matou Merccio?
Tebaldo, esse assassino, para onde fugiu?
BENvLIo. - Esse Tebaldo ei-lo por terra.
1 CIDADO. - Vem, senhor, vem comigo: em nome do Prncipe,
mando que obedeas.

(Entram o PRNCIPE com o seu squito, MONTECCHIo, CAPULETo,
esposas e mais pessoas.)

PRNCIPE. - Onde esto os vis promotores desta rixa?
BENvLIo. - Oh, nobre Prncipe, eu posso revelar todas as
dolorosas circunstncias desta fatal querela! A est por
terra, morto pelo jovem Romeu, o homem que matou o teu
parente, o bravo Merccio.
LADY CAPULETO. - Tebaldo, o meu sobrinho!.:. O filho do meu
irmo! Oh, Prncipe!... Oh, meu sobrinho!... Meu marido!...
Foi o sangue do nosso querido sobrinho que correu! Prncipe,
se tu s justo, faze correr o sangue dos Montecchios, para
vingar o nosso sangue... Oh! O meu sobrinho, o meu sobrinho!

52

PRNCIPE. - Benvlio, quem  que comeou esta sanguinolenta
questo?
BeNVLIO. - Tebaldo, que a est, morto s mos de Romeu.
Romeu falou-lhe em bons termos, pediu-lhe que reflectisse na
futilidade da querela, expondo-lhe at o vosso profundo
descontentamento. Tudo isto, dito com suaves palavras, num tom
calmo, joelhos humildemente curvados, no conseguiu acalmar o
furor desenfreado de Tebaldo, que, surdo s palavras de paz,
dirige a ponta da espada contra o peito do intrpido Merccio,
que, to excitado como aquele, ope ferro ao ferro mortfero
e, com um desdm marcial, afasta com uma das mos a fria morte
e com a outra a envia a Tebaldo, cuja destreza repele o golpe.
Romeu grita-Lhe: "Basta, amigos! Amigos, separai-vos!". E com
um gesto mais rpido do que a palavra o seu brao gil obriga
as pontas fatais a baixar-se. No momento em que ele se mete de
permeio passa sob o seu prprio brao um prfido bote de
Tebaldo que fere mortalmente o intrpido Merccio. Tebaldo
foge, mas, pouco depois, volta sobre Romeu, que s neste
instante escuta a voz da vingana, e ambos se lanam um sobre
o outro, com a rapidez dum relmpago, porque, antes que eu
pudesse desembainhar a espada para os separar, j o fogoso
Tebaldo estava morto. Ao v-lo cair, Romeu fugiu. Que Benvlio
morra se esta no  a verdade.
LAdY CAPULETO. - Esse  um parente de Montecchio; a afeio
f-lo mentir; ele no diz a verdade! Do lado deles eram uns
vinte que lutaram nesta sinistra rixa; foram precisos vinte
para poderem matar um. Eu peo justia, e tu tens de no-la
fazer, Prncipe. Romeu matou Tebaldo: Romeu tem de morrer.
PRNCIPe. - Romeu matou Tebaldo; Tebaldo matou Merccio.
Quem deve agora pagar o preo desse to querido sangue? .
MoNTeCCHIo. - No deve ser Romeu, Prncipe; ele era amigo de
Merccio. A sua falta foi apenas ter executado aquilo que a
lei havia de decidir: a morte de Tebaldo.
PRNCIPE. - E por essa ofensa ns exilamo-lo imediatamente.
Eu prprio sou vtima do vosso dio. Por causa das vossas
brutais disputas o meu sangue est correndo; mas hei-de
punir-vos com um castigo to pesado que haveis de
arrepender-vos da perda que eu sofro. Serei surdo a
explicaes e desculpas; nem lgrimas nem rogos resgataro

53

os abusos; tudo isso , pois, intil. Que Romeu se apresse a
partir; a hora em que ele aqui for encontrado ser para ele a
ltima. Levai daqui este corpo, e que a nossa vontade seja
cumprida. A clemncia seria assassina se perdoasse queles que
matam.

(Saem.)

Cena II

- Jardim dos Capuletos

(Entra JUlIeTA.)

JULIeTA. - Voai em direco  morada de Febo,  corcis
fogosos! Faetonte saber bem fazer-vos galopar para o
Ocidente, e imediatamente cair a sombria noite... Estende o
teu espesso vu,  noite, protectora do amor, para que se
fechem os olhos dos rumores e Romeu possa vir para os meus
braos, sem que nele se fale e sem que o vejam! Para
celebrarem os ritos amorosos basta aos amantes a luz da sua
prpria beleza; e, se  verdade que o amor  cego, mais se
harmoniza com as trevas da noite... Vem,  noite complacente,
matrona de sbrios vestidos negros, e ensina-me a perder
ganhando essa partida jogada por duas virgindades sem mancha!
Esconde, com o teu negro manto, o sangue indisciplinado que
arde nas minhas faces, at que o tmido amor se torne mais
ousado e veja apenas castidade no acto do verdadeiro amor.
Vem,  noite! Vem, Romeu! Tu fars da noite dia, quando
chegares nas asas da noite, mais branco do que a neve fresca
nas asas dum corvo. Vem,  noite suave; vem,  terna noite de
negra fronte, d-me o meu Romeu, e, quando ele morrer, toma-o
ento e faze dele estrelas pequeninas. Ele tornar to
resplandecente a face e recusar o seu culto ao deslumbrante
Sol... Oh! Eu comprei uma manso de amor, mas ainda no tomei
posse dela, e aquele que me adquiriu ainda me no possui. To
fastidioso  este dia como a noite que precede uma festa o 
para a criana impaciente que, tendo um vestido novo para
estrear, ainda o no pde vestir. Oh! A vem a ama... (Entra a
AmA com uma escada de corda.) Ela traz-me notcias, e para mim
cada boca que pronuncie o nome Romeu tem uma eloquncia
celestial... Ento, ama, que novas trazes?

54 55

Que tens a? So as cordas que Romeu te disse que fosses
buscar?
AMA. - Sim, sim, so as cordas. (Deita-as ao cho.)
JULIETA. - Meu Deus! O que  que se passa? Porque  que
torces assim as mos?
AMA. - Oh! Que dia aziago! Ele morreu! Morreu! Ele morreu!
Estamos perdidas, senhora, estamos perdidas! Que dia aziago!
Ele partiu, mataram-no, ele morreu!
JULIETA. - Pde o Cu ser assim cruel?
AMA. - Pde-o Romeu, embora o Cu o no pudesse... Oh!
Romeu, Romeu! Quem o havia de pensar? Romeu!
JULIETA. - Que demnio s tu para assim me atormentares?
Isto  um suplcio que faria rugir os condenados do horrvel
Inferno! Romeu matou-se? Dize-me apenas sim,, e essa nica
palavra envenenar-me- mais rapidamente do que o olhar
mortfero do basilisco! Eu deixo de existir se puder existir
um tal sim, ou se os olhos de Romeu se fecharam para que tu
possas responder sim,. Ele morreu? Dize-me sim, ou no"; e que
uma nica slaba decida da minha felicidade ou desventura.
AMA. - Eu vi a ferida, vi-a com os meus olhos... Que Deus
nos proteja!... Foi no seu peito varonil... Um cadver que
inspira piedade, um cadver to ensanguentado que inspirava
piedade; plido, plido como a cinza, todo sujo de sangue, de
sangue coalhado... Ao v-lo at desmaiei.
JULIETA. - Oh! Despedaa-te, corao! Pobre destroado, foge
depressa de mim! E vs, meus olhos, fechai-vos e jamais
penseis na liberdade. Terra vil, transforma-te de novo em
terra, perde os movimentos, e que o mesmo caixo se feche
sobre ti e Romeu.
AMA. - Tebaldo, Tebaldo, o meu melhor amigo! Oh, corts
Tebaldo, cavalheiro honesto! Nunca eu tivesse vivido para te
ver morto!
JULIETA. - Que tempestade  essa que sopra em to contrrias
direces? Mataram Romeu e Tebaldo est morto? O meu primo
muito querido e o meu senhor mais querido ainda? Que sopre
ento a terrvel trombeta do juzo final. Pois quem h-de
viver se esses dois morreram?
AMA. - Tebaldo j no vive e Romeu foi exilado. Romeu, que o
matou, foi desterrado por isso mesmo.
JULIETA. - Oh!, meu Deus! Seria a mo de Romeu que fez
correr o sangue de Tebaldo?
AMA. -- Foi, foi. Oh! Que dia este!
JULIETA. - Oh, corao de serpente oculto em semblante de
flor! J algum dia drago assim ocupou caverna to bela? Oh,
formoso tirano! Demnio anglico! Corvo de penas de pomba!
Cordeiro com entranhas de lobo! Substncia odiosa sob
aparncia divina, verdadeiro oposto do que  na realidade,
santo maldito, nobre miservel! Oh, natureza! Que tinhas tu de
ir buscar ao Inferno quando abrigavas um esprito demonaco em
paraso mortal de corpo to perfeito? Nunca houve livro de
assunto to vil to bem encadernado. Oh! Para que h-de a
perfdia habitar um to magnfico palcio?
AMA. - Nos homens no h lealdade, f ou honradez; todos so
perjuros, todos falsos, todos desprezveis, todos hipcritas!
Oh! Onde  que est o meu criado? Dai-me um pouco de
aguardente. Estes desgostos, estas dores e pesares fazem-me
velha. Que a vergonha caia sobre Romeu!
JULIETA. - Que a tua lngua se cubra de chagas por
semelhante desejo! Ele no nasceu para a vergonha! A vergonha
envergonhar-se-ia de cobrir a sua fronte, porque  um trono
onde a honra poderia ser coroada como monarca absoluto do
universo. Oh! Que monstro eu era ao ultraj-lo assim!
AMA. - Ireis dizer bem de quem matou o vosso primo?
JULIETA. - Hei-de dizer mal daquele que  meu marido? Oh!
Meu pobre senhor, qual h-de ser a voz que h-de bendizer o
teu nome, quando eu, que sou h trs horas tua esposa, o
injuriei? Mas, infame, porque mataste tu o meu primo?Porque,
se o no fizesse, esse infame primo teria matado o meu esposo.
Lgrimas loucas, voltai  fonte donde brotastes: esse tributo,
que vs por engano ofereceis  alegria,  s  dor que
pertence. Meu esposo, que Tebaldo queria matar, est vivo; e
Tebaldo, que queria matar meu marido, est morto. Tudo isso 
uma felicidade! Para que chorar pois?... Oh! Ouvi uma palavra,
bem pior que a morte de Tebaldo, que me apunhalou! Bem quisera
esquec-la! Mas, ai! Ela pesa na minha memria como uma falta
condenvel na conscincia dum pecador. Tebaldo morreu e Romeu
foi desterrado., Desterrado! S esta palavra desterrado matou
para mim dez mil Tebaldos. A morte de Tebaldo era dor
suficiente se acabasse por a! Se a inexorvel desgraa gosta

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de andar acompanhada, se tem absoluta necessidade de se juntar
a outras calamidades, porque  que, depois de ela me ter dito:
Tebaldo morreu, no acrescentou: o teu pai tambm, ou tua me,
ou mesmo os dois? Isso ter-me-ia causado uma angstia
tolervel. Mas aps a morte de Tebaldo anunciar: "Romeu foi
desterrado!" s pronunciar essas palavras  matar,  fazer
morrer pai, me, Tebaldo, Romeu e Julieta! Romeu desterrado!,
No h um fim, um limite, uma medida ou marco para esta dor!
Onde esto meu pai e minha me, ama?
AmA. - Chorando e lamentando-se sobre o cadver de Tebaldo.
Quereis ir ter com eles? Vinde comigo.
JuLIETA. - Que lhe lavem as feridas com as suas lgrimas.
Quando essas estiverem secas, eu verterei as minhas pelo
exlio do meu Romeu. Leva essas cordas... Pobre escada, foste
enganada como eu, pois Romeu foi exilado! Ele tencionava fazer
de ti um caminho para o meu leito; mas eu, eu, que fico
virgem, morrerei em viuvez virginal. Vinde, cordas. Vem, ama.
Eu vou para o meu leito nupcial, e em vez de Romeu ser a
morte a levar a minha virgindade.
AMA. - Ide para o quarto. Eu vou procurar Romeu para vos vir
consolar... Eu sei bem onde ele est... Ouvi-me, o vosso Romeu
estar aqui esta noite; vou ter com ele; est escondido na
cela de Frei Loureno.
JULIETA. - Oh! Vai ento procur-lo! D este anel ao meu
fiel cavaleiro e pede-lhe que venha dizer-me o seu ltimo
adeus.

(Saem.)

Cena III

- Cela de Frei Loureno

(Entra FREI LOURENO.)

FREI LOURENO. - Vem c, Romeu; vem, desgraado! A aflio
enamorou-se das tuas virtudes e tu casaste com a desventura.

(Entra RomEu.)

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RoMEu. - Que novas trazeis, Padre? Qual  a sentena do
Prncipe? Qual  a dor ainda desconhecida que deseja
aproximar-se de mim?
FREI LOURENO. - Tu j ests bem familiarizado com to
triste companhia, meu filho. Trago-te notcia da sentena do
Prncipe.
RoMEu. - Que menos pode ela ser do que sentena de morte?
FREI LouRENo. - Dos seus lbios saiu uma sentena menos
rigorosa: no morte do corpo, mas o seu desterro.
RoMEu. - O desterro? Por piedade, dizei antes a morte! Pois
o exlio tem para mim um aspecto mais terrvel; oh, bem mais
terrvel do que a morte! No digais desterro".
FREI LOURENO. - s desterrado de Verona. Tem pacincia: o
mundo  grande e vasto.
RoMEu. - Para fora dos muros de Verona o mundo no existe;
h apenas Purgatrio, tortura ou o prprio Inferno. Ser banido
daqui  ser banido do mundo, e o exlio do mundo  a morte.
Por isso, o desterro  a morte sob um outro nome. Chamando 
morte desterro,,  cortardes-me a cabea com um machado de
ouro e sorrirdes ao golpe que me mata.
FREI LOURENO. - Oh, pecado mortal! Oh, negra ingratido!
Segundo a nossa lei, para a tua falta s havia a morte; mas o
nosso bom Prncipe, tomando o teu partido, torceu a lei, e
essa sombria palavra morte, foi substituda por "desterro".
Isto  uma enorme graa, e tu nem te apercebes dela!
RoMEU. -  tortura e no uma graa! O Cu s existe aqui
onde vive Julieta. E qualquer gato ou co, ratinho ou ser mais
insignificante vive neste paraso, pode contempl-la, mas
Romeu no pode. As moscas, que vivem na podrido, so mais
privilegiadas, tm uma mais honrosa situao e so mais
favorecidas do que Romeu. Elas podem pousar na mo
maravilhosamente branca da minha querida Julieta e colher uma
bno imortal sobre os seus lbios, que na sua pura e
virginal modstia esto sempre rubros, como se julgasse que os
seus prprios beijos so pecado. Tudo isto  permitido s
moscas, mas a mim -me proibido. Elas so livres, mas eu sou
um desterrado. E ainda me dizeis que o exlio no  a morte?
No tnheis vs um veneno activo, um punhal bem afiado,
qualquer meio de morte repentina? No tereis para me matar
seno esta palavra: "desterrado"? "Desterrado"! Essa palavra,

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Padre, empregam-na os condenados do Inferno, acompanhando-a de
gemidos. Como  que vs, um confessor espiritual, que
absolveis os pecados, e que sois meu amigo declarado, tivestes
coragem de me atormentardes com a palavra "desterro"?
FREI LOURENO. - Oh, insensato! Escuta-me um instante!
ROMEU. - Oh! Ides falar-me ainda de desterro?
FREI LOURENO. - Vou dar-te uma armadura para te livrares
dessa palavra. A filosofia, doce leite da adversidade, h-de
consolar-te, apesar de desterrado.
RoMEU. - Apesar de desterrado? Que se enforque a filosofia.
Se essa filosofia no pode criar uma Julieta, mudar de lugar
uma cidade, revogar a sentena dum prncipe, de nada me serve,
nada vale. No me faleis mais nisso.
FREI LOURENO. - Agora vejo que os loucos no tm ouvidos.
RoMEU. - Como haviam eles de os ter, quando os sbios no
tm olhos?
FREI LOURENO. - Deixa-me discutir contigo a tua situao.
RoMEU. - Vs no podeis falar daquilo que no sentis. Se
fsseis da minha idade e Julieta fosse a vossa amada, se
estivsseis casado h uma hora e tivsseis morto Tebaldo, se
amsseis loucamente como eu amo e como eu fsseis desterrado,
ento podereis falar, arrancar os cabelos e lanar-vos por
terra como eu fao neste instante, para tirar antecipadamente
a medida do meu tmulo.

(Batem  porta.)

FREI LOURENO. - Levanta-te, que esto a bater. Vai
esconder-te, bom Romeu.
ROMEU. - No, no me esconderei, a no ser que o hlito dos
meus dolorosos suspiros me envolva numa nuvem que me encubra
aos olhares investigadores.

(Batem outra vez.)

FREI LOURENO. - Ouves como batem? - Quem est
l?Levanta-te, Romeu; olha que te prendem.

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- Esperai um momento. - Levanta-te. (Voltam a bater.) Vai
depressa para a minha cela de estudo. - Vou j, Santo Deus!
Mas que loucura  esta? J l vou, j l vou! (Batem outra
vez.) Quem  que bate com tal fora? Donde vindes e que
quereis?
AMA (de fora). - Deixai-me entrar e sabereis ao que venho. 
da parte da menina Julieta que estou aqui.
FREI LOURENO. - Ento sede bem-vinda!

(Entra a AMA.)

AMA. - Oh! Reverendo Padre, dizei-me onde est o senhor da
minha ama; onde est Romeu?
FREI LOURENo. - Ali, por terra, e brio das suas prprias
lgrimas.
AMA. - Est justamente no mesmo estado que a minha ama;
justamente no mesmo estado!...
FREI LOURENO. - Oh! Triste simpatia! Lamentvel situao!
AMA. -  mesmo assim que ela est: deitada, soluando e
chorando, chorando e soluando! Levantai-vos, levantai-vos, se
sois um homem! Por amor de Julieta, por amor dela,
levantai-vos! Porque vos deixais cair em to profundo
desespero?
ROMEU. - Oh, ama!
AMA. - Ah! Senhor, senhor!... A morte  o fim de tudo.
RoMEu. - Falaste de Julieta? Em que estado est ela? No me
olhar como um assassino endurecido, agora que manchei o
alvorecer da nossa felicidade com sangue to prximo do seu?
Onde est ela? E como est? E que diz a minha secreta esposa
do nosso amor assim manchado?
!
AMA. - Oh! Ela no diz nada, senhor. S chora, chora, depois
cai sobre o leito, torna a levantar-se, chama por Tebaldo,
grita depois por Romeu, torna a cair...
RoMEU. - Como se esse nome, disparado por canho mortal, a
assassinasse - como a mo maldita do que tem esse nome lhe
assassinou o primo... Oh! Dizei-me, Padre, dizei-me em que vil
parte deste corpo se aloja o meu nome; dizei-mo, para que eu
possa destruir esse covil odioso. (Desembainha a espada.)
FREI LouREno. - Detm a tua mo desesperada! s tu um
homem? O teu aspecto grita que sim; mas as tuas lgrimas so
de mulher e os teus actos selvagens comparam-se  fria
insensata duma fera. Oh! Mulher deformada sob aparncia de
homem, ou fera monstruosa sob esta dupla forma,

60

causas-me espanto! Pela minha santa Ordem que te julgava de
carcter mais equilibrado. Mataste Tebaldo e agora queres
matar-te a ti? Queres matar a tua esposa, que s vive da tua
vida, cometendo contra ti mesmo esse amaldioado acto de dio?
Para que amaldioas tu o teu nascimento, o Cu e a Terra, se
nascimento, Cu e Terra se encontram reunidos em ti e tu
queres perd-los num instante? Tem vergonha, tu que
envergonhas a tua beleza, o teu amor e o teu esprito! Como
usurrio, ests cheio de todos os bens, mas no os empregas no
legtimo uso que faria honra  tua beleza, ao teu amor e ao
teu esprito. A tua nobre beleza no passa duma figura de cera
desprovida do valor viril; as tuas juras de terno amor so
perjrio que mata aquela a quem tinhas prometido amar
ternamente. O teu esprito, esse ornamento da beleza e do
amor, no sabe como h-de servir-lhes de guia; como a plvora
na cartucheira dum soldado desastrado, ele  incendiado pela
tua ignorncia, e s mutilado pelo teu prprio meio de defesa.
Vamos homem, levanta-te! A tua Julieta vive! Essa Julieta por
quem tu morrias ainda h pouco. No s nisso feliz? Tebaldo
queria matar-te, mas tu mataste Tebaldo; e no te ds ainda
por feliz? A lei que te ameaava de morte mostra-se tua amiga
e transforma-a em exlio. No s nisso feliz? Uma chuva de
bnos cai sobre a tua cabea, a felicidade corteja-te sob os
seus melhores adornos, mas tu, amuado como uma criana mal
educada, fazes caretas  felicidade e ao amor. Tem cuidado,
tem cuidado! Porque  assim que se morre miservel! Vamos, vai
ter com a tua bem amada, como estava combinado, sobe ao seu
quarto e vai consol-la. Mas, olha, no fiques l at que seja
posta a guarda, porque assim no podereis alcanar Mntua,
onde deves viver at que encontremos o momento favorvel de
revelar o vosso casamento, reconciliar os vossos pais, obter o
perdo do Prncipe e trazer-te de novo para aqui um milho de
vezes mais feliz do que partes, desgostoso... Vai  frente,
ama; recomenda-me  tua senhora e dize-lhe que faa deitar
cedo todos os de casa. O desgosto que sobre eles pesa h-de
disp-los ao repouso. Romeu j l vai ter.
Ama. - Oh, senhor! Eu era capaz de ficar aqui toda a noite
para ouvir os vossos bons conselhos. Oh! O que  a
instruo!... Meu senhor, vou j dizer  minha ama que ides
ter com ela.

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RoMEU. - Sim, sim, e dize  minha amada que se prepare para
me ralhar.
Ama. - Aqui est um anel que ela me disse que vos desse,
senhor. No percais tempo; aviai-vos, porque est a fazer-se
tarde. (Sai.)
RoMEU. - Como isto reanima a minha coragem!
FREI LOURENO. - Parte, e boa noite. Mas toma ateno ao
que vou dizer-te, que  do que depende a vossa sorte: deixa
Verona antes que a guarda tome o seu lugar, ou foge disfarado
ao romper do dia. Fica em Mntua. Eu saberei encontrar o teu
criado, por quem, de vez em quando, te hei-de mandar notcias
do que aqui se for passando e que seja agradvel para ti.
D-me a tua mo; j  tarde; adeus e boa noite.
RoMEU. - Se uma alegria superior a todas as alegrias me no
chamasse, ser-me-ia bem doloroso separar-me de vs to
bruscamente. Adeus.

(Saem.)

Cena IV

- Uma sala na casa dos Capuletos

(Entram CAPULETO, LADY CAPULETO e PRIS.)

CAPULETO. - Tm ocorrido coisas to lamentveis que no
temos tido tempo para convencer a nossa filha. Ela estimava
tanto o primo Tebaldo! Tanto como eu. Mas ento! Ns nascemos
para morrer.  j muito tarde. Esta noite ela no deve descer.
Asseguro-vos que, se no fosse a vossa companhia, j h uma
hora que estaria deitado.
PRIs. - Quando a desgraa fala no  o momento de o amor
falar. Boa noite, minha senhora, e recomendai-me  vossa
filha.
LADY CAPULETO. - Pois sim; e amanh, logo de manh, hei-de
saber o que ela pensa. Esta noite est entregue  sua dor.
CAPULETO. - Quase me atrevo a prometer-vos o amor da minha
filha, cond; penso que ela se deixar guiar por mim em todas
as coisas; at mais: eu no o duvido. Senhora, ide ter com ela
antes de vos deitardes. Dai-lhe a conhecer o amor do meu filho

62

Pris e dizei-lhe - tomai bem sentido! - que na prxima
quarta-feira... Mas esperai! Que dia  hoje?
PRIs. - Segunda-feira, senhor.
CAPULETO. - Segunda? Ah! Ah! Ento quarta  cedo demais. 
melhor na quinta-feira... Dizei-lhe que na quinta-feira casar
com este nobre conde... Estareis vs disposto? Agradar-vos-
esta rapidez? No faremos grande estado: um amigo ou dois,
porque haveis de compreender que, como Tebaldo foi morto h
to pouco tempo, haviam de pensar que no tivemos pena do
nosso parente, se fizssemos grande festa. Por isso
convidaremos apenas uma meia dzia de amigos e nada mais. Mas
o que vos parece a quinta-feira?
PRIs. - Eu queria que quinta-feira fosse amanh, senhor.
CAPULETO. - Bem; podereis partir... ser ento na
quinta-feira. E vs ide ter com Julieta antes de vos deitardes
e preparai-a para este casamento. Adeus, senhor... Que me
levem luzes para o meu quarto. Credo,  j to tarde que daqui
a pouco  madrugada... Boa noite.

(Saem.)

Cena V

- Quarto de Julieta

(Entram ROMEU e JULIETA.)

JULIETA. - Ento queres j partir? O dia ainda no vai
despontar! Foi o rouxinol, e no a cotovia, que fez assustar o
teu ouvido. Todas as noites ele costuma cantar pousado alm
naquela romzeira. Podes crer, meu amor, que era o rouxinol.
RoMEU. - Era a cotovia, mensageira da manh, e no o
rouxinol. Olha, meu amor, como aquelas listras de luz enlaam
despeitadas as nuvens, alm no Oriente. As candeias da noite
esto extintas e o dia jocundo pousa j a ponta do seu p nos
cumes brumosos das montanhas. Tenho de partir e viver, ou
ficar e morrer.
JULIETA. - Aquela claridade l ao longe no  ainda a luz do
dia, eu bem o sei;  qualquer meteoro que o Sol exala para te
servir de tocha esta noite e alumiar-te o caminho para Mntua.
Fica mais um pouco; no tens necessidade de partir j.

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ROMEU. - Seja! Que me prendam, ou me matem! Se esse  o teu
desejo, serei feliz. Direi que aquele claro pardacento no 
o olhar da manh, mas o plido reflexo da fronte de Cntia;
que no  a cotovia que canta essas notas agudas, fazendo
ressoar a abbada celeste, que fica l to alto! Tenho mais
desejo de ficar do que de partir. Vem, morte, e s
bem-vinda!... A minha Julieta assim o quer... Ento, meu amor?
Conversemos, que no  ainda dia...
JULIETA. - , ! Foge depressa.  a cotovia que canta to
fora de tom, lanando essas notas discordantes, esses sons to
speros e desagradveis. Dizem que a cotovia separa as notas
duma maneira to bonita! Mas afinal isso no  verdade: a ns
 que ela separa. Dizem outros, que a cotovia e o feio sapo
trocaram os olhos. Oh! Quem me dera que eles tivessem tambm
trocado a voz. Porque essa voz nos arranca, assustados, dos
braos um do outro, levando-te daqui, quando anuncia a
alvorada. Oh! Parte agora, meu amor, que est a tornar-se cada
vez mais claro.
RoMEu. - Cada vez mais claro?... Cada vez mais negro o nosso
infortnio.

(Entra a AMA.)

AMA. - Senhora!
JULIETA. - Que , ama?
AMA. - A senhora vossa me dirige-se para o vosso quarto. O
dia j rompeu; sede prudente, tende cuidado. (Sai.)
JULIETA. - Oh! Janela, deixa ento entrar a luz do dia e
sair a minha vida!
RoMEu. - Adeus, adeus... S um beijo mais e deso logo.
(Desce.)
JULIETA. - E partes assim, meu amor, meu senhor, meu amigo?
Preciso de saber notcias tuas, todos os dias, de cada hora,
pois h tantos dias num s minuto! Oh! Por estes clculos,
serei bem velha quando tornar a ver o meu Romeu!
RoMEU. - Adeus. No perderei uma nica oportunidade de te
mandar as minhas lembranas, meu amor.
JULIETA. - Pensas que tornaremos a ver-nos algum dia?
RoMEu. - No o duvido, e todas estas desventuras ho-de
servir-vos de tema nas felizes conversas de dias futuros.

64

JULIETA. - Meu Deus! Na minha alma h um to terrvel
pressentimento!... Agora, que ests tanto l em baixo, ests a
parecer-me um cadver no fundo duma tumba. Ou os meus olhos se
enganam, ou s tu que ests bem plido...
RoMEu. - Tambm tu, meu amor, me pareces muito plida. Os
sedentos desgostos bebem-nos o sangue... Adeus, adeus! (Sai.)
JULIETA. - Oh! Fortuna, fortuna! Todos te chamam
inconstante! Mas, se o s, que tens tu a fazer com o meu
Romeu, que to conhecido  pela sua fidelidade? Mas s
inconstante, fortuna, porque assim espero que mo no hs-de
reter muito tempo e que em breve mo restituirs.
LADY CAPULETO (de dentro. - Oh! Minha filha! Ests
levantada?
JULIETA. - Quem me chama?  a senhora minha me? To tarde e
ainda se no deitou? Ou j levantada to cedo? Que estranho
motivo a traz aqui?

(Entra LADY CAPULETO.)

LADY CAPULETO. - Que tens tu, Julieta?
JULIETA. - No estou bem, senhora.
LADY CAPULETO. - Sempre a chorar pela morte do teu primo?
Queres,  fora de lgrimas, arranc-lo do tmulo? Ainda mesmo
que o conseguisses, no o farias reviver. Consola-te pois; um
pesar moderado prova muita afeio, mas pesar excessivo mostra
sempre fraqueza de esprito.
JuLIETA. - Deixai-me chorar ainda uma to sentida perda.
LADY CAPULETO. - Sentirs a perda, mas no fars reviver o
amigo por que choras.
JULIETA. - Eu sinto to vivamente a perda desse amigo que
no posso deixar de o chorar eternamente.
LADY CAPULETO. - Est bem, minha filha: o que te faz chorar
no  tanto a sua morte como o saberes vivo o infame que o
matou.
JULIETA. - Que infame, senhora?
LADY CAPULETO. - Esse infame Romeu.
JULIETA (aparte). - Entre um infame e ele h muitas milhas
de distncia. Que Deus lhe perdoe, como eu lhe perdoo de todo
o corao; e contudo no h no mundo homem algum que tantas
aflies me tenha causado.
LADY CAPULETO. - E por viver ainda esse traidor assassino.

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JuLIETA. - Sim, senhora, fora do alcance das minhas mos.
Quem me dera ser a nica pessoa encarregada de vingar a morte
do meu primo.
LADY CAPULETO. - Ns o vingaremos, no tenhas receio. Por
isso no chores mais. Hei-de mandar pedir a uma pessoa de
Mntua - onde vive agora esse vagabundo proscrito - que lhe d
um veneno to extraordinrio que ele depressa ir fazer
companhia a Tebaldo. Espero que assim ficars satisfeita.
JuLIETA. - Para falar verdade, s ficarei satisfeita quando
puder ver esse Romeu morto.  assim que est o meu corao
depois da morte dum tal primo. Senhora, se pudsseis encontrar
um homem que lhe levasse um veneno, eu mesma o havia de
preparar, e de tal maneira que, mal o tivesse tomado, Romeu
dormiria em paz. Oh! Como o meu corao sofre ao ouvir o seu
nome, sem poder ir ter com ele para saciar o amor que tinha a
meu primo no corpo daquele que o matou.
LADY CAPULETO. - Procura tu os meios que eu encontrarei o
homem. E agora, minha filha, tenho alegres notcias para te
dar.
JULIETA. - A alegria  bem-vinda numa ocasio em que tanto
dela se precisa. Que novas so essas? Peo-vos que mas digais,
senhora.
LADY CAPULETO. - Tens um pai que te adora, minha filha. Um
pai que, para te arrancar aos teus desgostos, acaba de
preparar um dia de festa que tu no esperas nem eu podia
prever.
JULIETA. - Muito me alegro, senhora. E que dia  esse?
LADY CAPULETO. - Pois bem, minha filha: na prxima
quinta-feira, pela manh, o jovem e bravo fidalgo conde Pris
ter a ventura de fazer de ti, na Igreja de So Pedro, uma
feliz esposa.
JuLIETA. - Pois nem pela Igreja de So Pedro, nem pelo
prprio So Pedro, ele far de mim uma feliz esposa.
Espanta-me uma tal pressa; quererem casar-me antes mesmo que
aquele que h-de ser meu marido me tenha feito a corte!
Peo-vos, senhora, dizei ao meu senhor e pai que eu ainda me
no quero casar, e, se algum dia o quiser fazer, juro que
antes seria com Romeu, que vs sabeis que odeio, do que com
Pris. E eram essas as boas novas...
LADY CAPULETO. - A vem teu pai. D-lhe tu mesma essa
resposta, e veremos como ele a recebe.

66

(Entram CAPULETO e a AMA.)

CAPULETO. - Quando o Sol desaparece, o ar destila o orvalho,
mas com o desaparecimento do filho do meu irmo chove, chove
torrencialmente. Ento? Ests mudada em fonte, minha filha? O
qu, sempre lgrimas? Sempre torrentes de lgrimas? Na tua
pequena pessoa vejo uma barca, o mar, o vento: os teus olhos,
que eu posso comparar ao mar, tm continuamente um fluxo e um
refluxo de lgrimas; o teu corpo  a barca que navega nas
ondas salgadas; e os teus suspiros so os ventos que, lutando
furiosamente com as lgrimas, acabaro por fazer soobrar o
teu corpo batido pela tempestade, se  que no vem sbita
calma... E ento, senhora? J lhe dissestes o que decidimos?
LADY CAPULETO. - J, meu senhor; mas ela recusa e
agradece-vos. Oxal que essa doida se casasse com o tmulo.
CAPuLETo. - Devagar, devagar, para que eu possa
compreender-vos. O qu! Ela recusa? No nos agradece? No se
sentir orgulhosa? No se julga ento feliz de, to indigna
como , Lhe termos procurado para marido um fidalgo to digno?
JULIETA. - No me sinto orgulhosa, mas agradeo-vos.
Orgulhosa no o poderia ser duma coisa que detesto. Mas sou
agradecida, at pelo que detesto, quando  feito com boa
inteno.
CAPULETO. - O qu, o qu, minha respondona? Que quer isso
dizer? Sinto-me e no me sinto orgulhosa!... Agradeo-vos e
no vos agradeo?... Minha Senhora Atrevida, dispensai-me dos
vossos agradecimentos e dos vossos orgulhos e preparai as
vossas lindas pernas para acompanhardes Pris, na prxima
quinta-feira,  Igreja de So Pedro. De contrrio hei-de eu
prprio arrastar-vos numa grade at l. Ora a amarelenta! A
libertina! A cara de sebo!
LADY CAPULETO. - Cala-te, cala-te. Ters endoidecido?
JULIETA. - Meu querido pai, suplico-vos de joelhos que
tenhais pacincia e me escuteis uma s palavra.
CAPULETO. - Enforca-te, jovem libertina, desobediente
criatura! Ouve o que te digo: ou vais  igreja na prxima
quinta-feira, ou jamais me olhes de frente. Escusas de falar,
replicar ou responder-me. Os meus dedos j me tremem... E
duvidvamos ns, senhora, das bnos de Deus por ele nos ter
dado apenas esta filha; mas agora vejo que esta nica era de
mais e que a sua vinda foi uma maldio.

67

Fora daqui, descarada!
AMA. - Que Deus do Cu a abenoe! Olhai que sois injusto em
trat-la assim, meu senhor.
CAPULETO. - E porqu, Senhora Sabichona? Calai a boca,
Senhora Prudncia, e ide tagarelar com as vossas comadres.
AMA. - O que eu disse no foi um crime.
CAPULETO. - Deus vos d muitas boas tardes...
AMA. - No se poder dizer uma palavra?
CAPULETO. - Silncio, estpida resmungona. Dai as vossas
sentenas quando fordes beber com as comadres, porque aqui no
so precisas.
LADY CAPULETO. - Que exaltado estais!...
CAPuLETo. - Oh! Hstia sagrada! Isto faz-me doido. De dia e
noite, a toda a hora e a todo o minuto, a todos os instantes,
quer no trabalho quer nos divertimentos, s ou acompanhado, o
meu nico pensamento era cas-la; e agora, que encontrei um
fidalgo de nobre linhagem, de bela fortuna, jovem, de boa
educao, adornado, como se diz, de honrosas qualidades...
enfim, um homem como se pode desejar, tenho de ouvir uma
miservel choramingas, uma boneca chorinca, que, quando se lhe
oferece a felicidade, responde: "Eu no me quero casar,, no
posso amar, sou ainda muito nova, peo-vos desculpa." Mas no
vos caseis, e haveis de ver como eu vos perdoo: ide comer
aonde quiserdes, porque no ficareis em minha casa. Pensai
nisso, e pensai bem. Olhai que eu no costumo brincar.
Quinta-feira j vem perto. Ponde a mo sobre o corao e
reflecti. Se sois a minha filha, dar-vos-ei ao meu amigo; se o
no sois, enforcai-vos, ide mendigar, morrei de fome por essas
ruas; pois assim Deus salve a minha alma em como jamais
quererei saber de vs, e jamais ser vosso tudo aquilo que me
pertence. Tomai sentido no que vos disse, reflecti, porque eu
no quebro a minha palavra. (Sai.)
JULIETA. - No haver nos Cus piedade que veja a
profundidade da minha dor? Oh, minha querida me, no me
abandoneis! Adiai este casamento por um ms, uma semana! Ou,
de contrrio, mandai-me fazer o meu leito nupcial no sombrio
monumento em que Tebaldo repousa.
LADY CAPULETO. - No me fales, pois eu no direi uma
palavra. Faze o que tu quiseres, porque entre ns est tudo
acabado. (Sai.)

68

JULIETA. - Oh, meu Deus!... Oh, ama! Como  que isto se
h-de impedir? O meu esposo est na Terra, o meu juramento
est no Cu. Como  que esse juramento h-de voltar  Terra
sem que o meu esposo, deixando esta Terra, mo v enviar dos
Cus? Conforta-me e aconselha-me. Ai de mim! Como pode o Cu
dar tantas provocaes a uma criatura to fraca como eu? Que
dizes tu? No me dars uma palavra de conforto? Oh, ama!
Consola-me!
AMA. - Pela minha f, escutai-me: Romeu foi desterrado;
aposto o mundo inteiro contra coisa nenhuma que ele se no
atrever a vir reclamar-vos, ou, se o fizer, ter de ser s
escondidas. Portanto, como as coisas esto como esto, penso
que  melhor casardes com o conde. Oh! Ele  um fidalgo
encantador! Romeu ao p dele no passa dum esfrego. Uma
guia, senhora, no tem uns olhos to verdes, to vivos e to
belos como Pris. Maldito seja o meu corao se no sois feliz
com este segundo casamento! Ele vale bem mais do que o
primeiro. Ou, mesmo ainda que assim no seja, o vosso primeiro
marido morreu, ou mais valeria que assim fosse do que viver
aqui sem vos servir de nada...
JULIETA. -  do fundo do corao que dizes isso?
AMA. - Do fundo do meu corao e da minha alma; malditos
sejam ambos se assim no .
JULIETA. - Amen.
AMA. - O qu?
JULIETA. - Aconselhaste-me maravilhosamente. Vai dizer 
minha me que, por ter desagradado ao meu pai, sa para me ir
confessar a Frei Loureno e receber a absolvio.
AMA. - Vou j; e nisso fazeis vs muito bem. (Sai.)
JuLIETA. - Oh! Velha danada! Demnio abominvel! Ser maior
pecado aconselhar-me assim o perjrio, ou injuriar o meu
senhor com aquela mesma lngua com que tantos milhares de
vezes o exaltou? Vai-te, conselheira! Desde este momento, o
meu e o teu corao ficam separados. Vou procurar Frei
Loureno para lhe pedir remdio. Se tudo estiver perdido,
terei ainda o recurso da morte. (Sai.)

Acto IV

Cena I

- Verona. Cela de Frei Loureno

(Entram FREI LOURENO e PRIS.)

FREI LOURENO. - Quinta-feira, senhor?  muito pouco tempo.
PRIs. - Tal  o desejo de meu pai Capuleto, e no serei eu
que ponha obstculos  sua pressa.
FREI LOURENO. - Dizeis ignorar os sentimentos da vossa
prometida. Eis uma coisa pouco regular e que nada me agrada.
PRIs. - Ela chora sem cessar a morte de Tebaldo, e  por
isso que ainda pouco lhe falei acerca do meu amor, pois Vnus
no sorri numa manso de lgrimas. Por outro lado, senhor, o
seu pai acha perigoso que ela se deixe assim dominar pelo
desgosto e prudentemente apressa o nosso casamento, para ver
se consegue estancar esta inundao de lgrimas. A dor que a
absorve na solido poder dissipar-se na companhia de algum.
Agora conheceis as razes desta pressa.
FREI LOURENO (aparte). - Oxal eu no conhecesse as que
deviam retard-lo. Olhai, senhor, a vem ela dirigindo-se
para aqui.

(Entra JULIETA.)

PRIs. - Como sou feliz de vos encontrar, minha senhora e
esposa!
JULIETA. - Esposa? Isso pod-lo-ia ser quando eu pudesse ser
uma esposa.
PRIs. - Podeis, e deveis s-lo na prxima quinta-feira, meu
amor.
JULIETA. - O que tiver de ser  que ser.
FREI LOURENO. - Eis uma verdade indiscutvel.
PRIs. - Vindes confessar-vos a este bom padre?

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JULIETA. - Se vos respondesse, seria a vs que me
confessaria...
PRIs. - No lhe negueis que me tendes amor.
JULIETA. - Confesso-vos que amo.
PRIs. - Se assim o confessardes, estou certo de que sou
amado.
JULIETA. - Se tal fizesse, essa confiso seria de mais valor
dita na vossa ausncia do que na vossa presena.
PRIs. - Pobrezinha! Como as lgrimas desfiguraram o teu
rosto!
JULIETA. - Fraca vitria conseguiram as lgrimas, pois ele
j no era muito lindo antes dos seus estragos.
PRIs. - Injuria-lo mais com essas palavras do que com as
prprias lgrimas.
JULIETA. - A verdade nunca foi calnia, senhor, e o que eu
disse dirigi-o ao meu rosto.
PRIS. - O teu rosto pertence-me e tu caluniaste-o.
JULIETA. -  possvel, pois que ele me no pertence a mim.
Reverendo Padre, tendes vagar de me ouvir agora, ou volto
depois do ofcio da tarde?
FREI LouRENo. - Tenho todo o vagar, minha filha. Senhor,
ns precisvamos de ficar ss.
PRIs. - Deus me livre de perturbar a vossa devoo.
Julieta, na quinta-feira de manh cedo irei acordar-vos. At
l, adeus, e recebei este respeitoso beijo. (Sai.)
JULIETA. - Oh! Fechai a porta e vinde depois chorar comigo!
No h esperana, nem remdio, nem socorro!
FREI LOURENO. - Oh, Julieta! Eu j conheo o teu desgosto,
que me pe fora de mim. Sei que na prxima quinta-feira, e sem
que nada o possa retardar, deves estar casada com o conde.
JuLIETA. - No me digais, Padre, que sabeis dessa desgraa
sem que me digais tambm como poderei remedi-la. Se na vossa
sabedoria no encontrais remdio para mim, dizei somente que
aprovais a minha resoluo, e com este punhal tudo remediarei.
Deus uniu o meu corao ao de Romeu e vs unistes as nossas
mos; e antes que esta mo, que por vs foi selada  de Romeu,
assine um outro contrato, ou o meu corao leal, revoltado
pela traio, se d a outro, este punhal mat-los- a ambos.
Por isso, em virtude da vossa longa experincia, dai-me
depressa um conselho! Quando no, reparai!

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Entre mim e o meu sofrer colocarei este sangrento punhal como
mediador, e ser ele que h-de resolver aquilo a que a
autoridade dos vossos anos e do vosso saber no pde dar uma
soluo verdadeiramente honrosa. Respondei-me com brevidade.
Tenho pressa de morrer se a vossa resposta me no d um
remdio.
FREI LOURENO. - Basta, minha filha! Antevejo uma espcie de
esperana, mas o meio necessrio  sua realizao  to
desesperado como desesperado  o mal que queremos impedir. Se
para no casares com o conde Pris tens a coragem de te querer
matar, t-la-s tambm para afrontar a imagem da morte, para
evitar a desonra, tu que, para escapares a ela, s capaz de
provocar a verdadeira morte; se realmente tens essa coragem,
dar-te-ei o remdio.
JULIETA. - Oh! Em vez de casar com Pris, ordenai-me que me
atire do alto daquela torre, ou que caminhe por atalhos
frequentados por bandidos; exigi que rasteje por entre as
serpentes; prendei-me com cadeias a ursos ferozes; encerrai-me
durante a noite numa casa morturia inteiramente coberta de
ossos continuamente em estalidos, de tbias em putrefaco e
de crnios amarelos e descarnados; mandai-me entrar numa cova
aberta de fresco e envolver-me com um morto no mesmo lenol -
coisas que s ouvi-las contar me fizeram tremer e que eu faria
sem receio ou hesitao para me conservar a esposa sem mancha
do meu bem-amado.
FREI LOURENO. - Escuta ento: vai para casa, mostra-te
alegre e dize que consentes em casar com Pris. Amanh 
quarta-feira.  noite arranja maneira de ficares sozinha; no
deixes que a ama se deite no teu quarto; uma vez na cama, pega
neste frasco e bebe todo o licor destilado que ele contm.
Imediatamente um frio e letrgico humor percorrer as tuas
veias; o teu pulso deixar de bater naturalmente e por fim
h-de parar; nem calor nem respirao ho-de atestar que
vives; as rosas das tuas faces e dos teus lbios ho-de
murchar e tornar-se da cor da plida cinza. As janelas dos
teus olhos fechar-se-o, como se a morte lhes apagasse a luz
da vida. Cada um dos teus membros, privado de flexibilidade e
movimento, se tornar rgido, hirto e frio como a morte. E
neste estado de morte aparente permanecers durante quarenta e
duas horas, ao fim das quais despertars como dum agradvel
sono.
Quando o noivo for, de manh, acordar-te, achar-te- morta.

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Ento, segundo o uso do nosso pas, adornada com o teu mais
belo vestido e colocada em esquife descoberto, sers levada
para o antigo mausolu onde repousa toda a famlia dos
Capuletos. Entretanto, e antes que tu despertes, Romeu,
informado, por carta minha, deste nosso plano, vir aqui; eu e
ele vigiaremos o teu despertar e nessa mesma noite Romeu
levar-te- para Mntua. Isto livrar-te- da vergonha iminente,
se nenhum ftil capricho ou receio feminil te fizer perder a
coragem no momento da execuo.
JULIETA. - Oh! Dai-me, dai-me o remdio, e no me faleis em
medo.
FREI LOURENO. - Aqui o tens. Parte; s firme e feliz na tua
resoluo. Eu vou mandar um religioso a Mntua com uma carta
minha para o teu senhor.
JULIETA. - Amor, d-me a tua fora, que essa fora me
salvar. Adeus, meu bom Padre.

(Saem.)

Cena II

- Sala em casa dos Capuletos

(Entram CAPULETO, LADY CAPULETO, AMA e criados.)

CAPULETO. - Tu irs convidar todos os senhores que esto
nesta lista. (Sai o 1 CRIADO.) E tu vai-me ajustar vinte
cozinheiros dos mais habilitados.
2 CRIADO. - No trarei nem um que seja mau, senhor, porque
hei-de escolher s os que souberem lamber os dedos.
CAPULETO. - E isso  uma maneira de os escolher?
2 CRIADO. - Por minha f que ser um mau cozinheiro o que
no souber lamber os prprios dedos. Portanto, os que no
souberem lamber os dedos no viro comigo.
CAPULETO. - Bem, vai ento. (Sai o 2 CRIADO.) Desta vez
estamos muito desprevenidos. Ento a minha filha foi  cela de
Frei Loureno?
AMA. - Foi, sim, senhor.
CAPULETO. - Bem; talvez isso lhe sirva de algum benefcio.
Ela  to impertinente e voluntariosa!
AMA. - Vede que ar alegre ela traz da confisso.

73

(Entra JULIETA.)

CAPULETo. - Ento por onde tens andado, minha teimosa?
JULIETA. - Por onde aprendi a arrepender-me do pecado de
desobedincia  vossa pessoa e s vossas ordens, e o Reverendo
Frei Loureno ordenou-me que viesse prostrar-me aos vossos ps
pedir-vos perdo. Imploro-vos que me perdoeis! E de ora avante
deixar-me-ei guiar inteiramente por vs.
CAPuLETo. - Ide procurar o conde e dizer-lhe tudo isto.
Quero que este enlace seja efectuado amanh de manh.
JULIETA. - Eu encontrei o jovem conde na cela de Frei
Loureno e ofereci-Lhe uma casta afeio, sem contudo
ultrapassar os limites da modstia.
CAPULETO. - Oh! Est bem! Estou encantado com isso.
Levanta-te! As coisas caminham como devem caminhar. Quero ver
o conde. Ento? J disse que fossem chamar o conde... Perante
Deus juro que toda a nossa cidade deve grandes favores a este
Reverendo Frei Loureno.
JULIETA. -  ama, queres acompanhar-me ao meu quarto para
me ajudares a escolher os adornos que julgues me fiquem bem
para me enfeitar amanh?
LADY CAPULETO. - Antes de quinta-feira no. Temos ainda
muito tempo.
CAPULETO. - Vai, ama; vai com ela; iremos  igreja amanh.

(Saem JULIETA e a AMA.)

LADY CAPULETO. - Teremos pouco tempo para os preparativos.
J  quase noite.
CAPULETO. - No digais isso. Eu vou mexer-me e tudo h-de
correr bem. Ide ter com Julieta para a ajudares a preparar; eu
no me deito esta noite; deixai-me s, que desta vez quero eu
fazer de dona de casa, pois ento! Todos saram. Bem, vou eu
prprio a casa do conde Pris preveni-lo para amanh. Tenho o
corao prodigiosamente alegre desde que esta louquinha veio a
bom caminho!

(Saem.)

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Cena III

- Quarto de Julieta

(Entram JULIETA e a AMA.)

JULIETA. - Sim, esse  o vestido que melhor me fica... Mas,
minha boa ama, deixa-me sozinha esta noite, peo-te, pois
necessito de rezar muito, para decidir os Cus a abenoarem a
minha situao, que, como sabes,  irregular e cheia de
pecados.

(Entra LADY CAPULETO.)

LADY CAPULETO. - Ento? Ainda tendes muito que fazer?
Quereis que vos ajude?
JULIETA. - No  preciso, senhora; j escolhemos o que ser
necessrio para a cerimnia de amanh. Agora, peo-vos,
deixai-me sozinha e levai convosco a ama, pois estou certa de
que haveis de ter muito que fazer em circunstncias to
repentinas.
LADY CAPULETO. - Boa noite! Vai-te deitar e repousa, porque
bem precisas.

(Saem LADY CAPULETO e a AMA.)

JULIETA. - Adeus! Quando nos tornaremos a ver, s Deus sabe.
Sinto um arrepio de medo que me corre pelas veias e que quase
me gela o calor da vida... Vou cham-las para me darem
coragem... A ama!... Para que a queria eu aqui?  sozinha que
eu tenho de representar esta terrvel cena. Peguemos no
frasco... E se esta mistura no produzisse efeito? Estaria
ento casada amanh? No, no! Eis quem me defenderia. Repousa
a! (Coloca o punhal ao seu lado.) E se isto fosse um veneno
com que o monge me quisesse matar por temer a desonra que Lhe
causaria este casamento, visto j me ter casado com Romeu?
Tenho medo que assim seja! Mas no, no  possvel, pois ele
sempre foi tido por um santo. E se, uma vez no tmulo, eu
acordasse antes de Romeu me ir libertar? Oh! Isso seria
terrvel! No serei capaz de asfixiar no tmulo, cuja boca
imunda jamais respira ar puro, e no morrerei sufocada antes
de Romeu chegar? Ou, mesmo, se viver, no  muito provvel

75

que a horrvel impresso da morte e da noite, aliadas ao
terror do lugar - esse tmulo, esse velho sepulcro, onde, h
tantos sculos, so amontoados os ossos de todos os meus
antepassados, onde o cadver ensanguentado de Tebaldo, ainda
h to pouco sepultado, comea a putrefazer-se sob o lenol,
onde, segundo dizem, a certas horas da noite pairam os
espritos! -, meu Deus, meu Deus! No  possvel que,
despertando antes da hora, no meio de exalaes infectas e de
gemidos semelhantes aos da mandrgora ao ser arrancada da
terra - gemidos esses que enlouquecem os mortais que os ouvem
-, oh! No  provvel que, se acordar nesse instante, eu perca
a razo, ao ver-me cercada de todos esses monstruosos
horrores? E ento, louca, no serei capaz de brincar com os
ossos dos meus antepassados, arrancar do seu lenol o cadver
desfigurado de Tebaldo e, neste delrio, servir-me dum osso
dum nobre antepassado para com ele,  maneira de maa, quebrar
o meu crnio? Oh! Parece-me ver o esprito do meu primo
perseguindo Romeu, que lhe atravessou o peito com a ponta da
espada... Parai, Tebaldo, parai! Romeu, meu Romeu!  por ti
que eu bebo isto! (Cai sobre a cama, por detrs das cortinas.)

Cena IV

- Sala em casa dos Capuletos

(Entram LADY CAPULETO e a AMA.)

LADY CAPULETO. - Toma, pega nestas chaves, ama, e vai-me
buscar mais especiarias.
AMA. - Na pastelaria pedem tmaras e marmelos.

(Entra CAPULETO.)

CAPULETO. - Vamos! Depressa! O galo j cantou duas vezes e
j tocaram  alvorada; so trs horas. Tem cuidado com os
pastis, boa Anglica, no olhes a despesas.
AMA. - Ide, ide deitar-vos, Senhor Anfitrio Zeloso. Palavra
que estareis doente amanh por terdes velado toda a noite.
CAPULETO. - Qual qu! Qual qu! J tenho passado outras
noites em claro por motivos menores do que este e nunca fiquei
doente.

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LADY CAPULETO. - Sim; bem sabemos que no vosso tempo
gostveis de caar aves nocturnas; mas agora c estou eu
alerta para evitar essas caadas.

(Saem LADY CAPULETO e a AMA.)

CAPULETO. - O qu? Cimes (Entram trs ou quatro criados com
espetos, lenha e cestos.) Que trazes a, rapaz?
1 CRIADO. - So coisas para a cozinha, mas no sei o que
isto .
CAPULETO. - Anda, desembaraa-te! (Sai o 1 CRIADO.) Anda,
vadio, vai-me buscar lenha mais seca; chama o Pedro para ele
te dizer onde a h.
2 CRIADo. - Eu tambm tenho cabea para procurar a lenha
sem ser preciso incomodar o Pedro. (Sai.)
CAPULETO. - Ora a est uma boa resposta e com muito
esprito, sim senhor. Pois ficars sendo o cabea da lenha.
Por minha f que j  dia. O conde no tarda a com os
msicos, porque prometeu que vinha com eles. (Ouve-se msica.)
J o ouo aproximar-se.  ama! Chamem a senhora! Ento!  ama!
(Entra a AMA.) Vai acordar Julieta e ajuda-a a vestir-se. Eu
vou conversar com Pris. Vamos, despacha-te! Depressa! O noivo
j chegou, avia-te! Ento?

(Saem.)

Cena V

- Quarto de Julieta

(Entra a AMA.)

AMA. - Menina! Ento, menina! Julieta! Estou certa de que
dorme profundamente. Ento, meu cordeirinho! Vamos, senhora!
Oh! Dorminhoca! Minha querida! Meu amor! Vamos, noivazinha!
Nem palavra! Vai-se desforrando a dormir. Dormi por uma
semana, porque eu vos garanto que logo  noite no vos deixar
dormir assim o conde de Pris. Que Deus me perdoe! Jesus!
Maria! Como ela dorme! Tenho de a acordar! Menina! Minha
menina! Quereis que o conde vos surpreenda na cama? Por minha
f que h-de ser ele que vos h-de vir fazer levantar, no?
Mas que  isto? Vestida, toda pronta, e tornou a deitar-se?

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Tenho de a acordar! Senhora, senhora! Menina! Credo, Jesus!
Socorro, acudam! A menina est morta. Oh! Que desgraa! Nunca
eu tivesse nascido! Tragam aguardente. Senhor! Minha senhora!

(Entra LADY CAPULETO.)

LADY CAPULETO. - Que barulho  este?
AMA. - Oh! Lamentvel dia!
LADY CAPULETO. - Mas o que ?
AMA. - Olhai, olhai! Oh! Que desgraado dia!
LADY CAPULETO. - Oh! Meu Deus, meu Deus! A minha filha, a
minha vida! Reanima-te, abre os teus olhos, ou morrerei
contigo! Acudam, acudam! Chamai por socorro!

(Entra CAPULETO.)

CAPULETO. - Que vergonha! Tragam Julieta, que o noivo j
chegou.
AMA. - Ela morreu! Morta! Est morta! Oh! Que desgraado
dia!
LADY CAPULETO. - Meu Deus! Que dia infeliz! Ela morreu!...
morreu! Ela morreu!
CAPULETO. - Ai! Deixai-me v-la!... Oh, como est fria! O
sangue parou e os seus membros esto rgidos. H muito j que
a vida abandonou os seus lbios. A morte caiu sobre ela como o
gelo precoce sobre a flor mais bela de todo o campo.
AMA. - Oh! Que dia desgraado!
LADY CAPULETO. - Oh! Hora cruel!
CAPULETO. - A morte, que ma roubou para me fazer gemer,
prende-me a lngua e corta-me a fala.

(Entram FREI LOURENO, PRIS e os msicos.)

FREI LOURENO. - Vamos! A noiva j est pronta para ir 
igreja?
CAPULETO. - Pronta para ir, mas para jamais voltar. Oh meu
filho! Na noite que precedeu o teu casamento, o fantasma da
morte veio compartilhar o leito da tua noiva, e eis agora a a
pobre flor desflorada por ele. O fantasma da morte  agora o
meu genro,  o meu herdeiro, foi esse fantasma que a minha
filha desposou.

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Oh! Eu quero morrer tambm, e a ele deixarei todos os meus
bens. Tudo, tudo agora lhe pertence.
PRIs. - H tanto tempo que eu desejava ver romper esta
alvorada, para ela me dar afinal um espectculo assim.
LADY CAPULETO. - Oh! Dia maldito e desgraado, miservel e
odioso! Hora mais deplorvel nunca o tempo viu no curso
laborioso da sua peregrinao. Ter apenas uma pobre filhinha,
uma pobre e querida filha, um nico ser para me alegrar e
consolar, e a morte cruel ter-ma arrancado dos braos!
AMA. - Oh! Dor! Oh! Maldito, maldito dia! Dia mais
lamentvel, dia mais doloroso, nunca os meus olhos viram! Oh!
Dia, dia, dia odioso! Dia mais negro nunca se viu! Oh! Dia
doloroso! Dia doloroso!
PRIs. - Enganado, divorciado, ultrajado, desprezado,
assassinado. Sim, detestvel espectro da morte, fui por ti
enganado e por ti, cruel, completamente arruinado! Oh! Meu
amor, minha vida! Vida!... No, tu no s a minha vida, mas
amor na morte!
CAPULETO. - Escarnecido, desprezado, aborrecido,
martirizado, morto! Instante cruel, para que vieste tu
assassinar a nossa festa? Oh!, filha, minha filha! Minha
filha? No! Toda a minha alma! Estars tu morta? Ai de mim! A
minha filha est morta e com ela morreram todas as minhas
alegrias.
FREI LOURENO. - Silncio! Silncio! No tendes vergonha?...
O remdio para males desesperados no est nestes desesperos.
Esta encantadora criana pertencia ao Cu e a vs. Agora ela 
toda do Cu, o que  para ela uma felicidade. A vossa parte
no a pudestes preservar da morte, mas o Cu guarda a sua para
a vida eterna. Vs s pensveis elev-la. Todo o vosso cu era
v-la enaltecida, e agora chorais ao v-la elevar-se acima das
nuvens, at ao prprio Cu? Oh! To mal amais a vossa filha
que enlouqueceis ao v-la feliz? Viver muito tempo casada no
quer dizer estar bem casada. Mas aquela que melhor casada est
 a que morre cedo. Limpai as lgrimas e colocai rosmaninho
sobre este belo corpo; e, segundo o uso, levai-a  Igreja com
o seu mais rico vesturio. Embora a fraca natureza nos obrigue
a chorar, as lgrimas da natureza fazem sorrir a razo.
CAPULETO. - Tudo o que tnhamos preparado para a festa serve
para este negro funeral. A msica dobra a finados; o banquete
nupcial transforma-se em banquete fnebre, os nossos hinos
solenes em cantos de dor.

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As flores do noivado servem para adornar um caixo, e todas as
coisas tm um destino contrrio.
FREI LOURENO. - Retirai-vos, senhor. E vs tambm, minha
senhora. Ide com eles, conde; que cada um se prepare para
acompanhar ao tmulo este belo corpo. Os Cus esto irados
contra vs por qualquer mal que lhes fizestes. No os irriteis
mais, contrariando a sua suprema vontade.

(Saem CAPULETO, LADY CaPULETO, PRIS e o FRADE.)

1 Msico. - Podemos guardar as flautas e partir.
AMA. - Podeis, podeis, meus bons amigos, pois bem vedes que
acontecimento se deu. (Sai.)
1 MsIco. - Na verdade, no  l dos melhores.

(Entra PEDro.)

PEDRo. - Msicos, msicos! Depressa a Alegria do Corao!
Alegria do Corao! Se quiserdes ver-me com vida, tocai a
Alegria do Corao.
1 Msico. - E porqu a Alegria do Corao?
PEDRo. - Oh! Msicos! Porque o meu corao est a tocar: O
meu corao est triste. Oh! Tocai-me qualquer endecha alegre
para me confortardes!
1 Msico. - Nada de endechas. No  agora o momento de se
tocarem endechas.
PEDRo. - Ento no quereis?
1 MsICo. - No.
PEDRo. - Eu j vo-la vou dar solfejada.
1 MsICo. - O que  que nos ides dar?
PEDRo. - No  dinheiro,  uma tapona, meu gaiteiro.
1 MsIco. - Olha o reles criado!
PEDRo. - Espera que eu j te vou aplicar no toutio a adaga
do reles criado. No estou para aturar parvoces. Hei-de
tocar-vos nas espduas em f e em r.
1 Msico. - Para nos tocardes em r e f sereis vs que nos
dais a nota.
2 MsICo. - E se metsseis a espada na bainha e
desembainhsseis o esprito?

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PEDRo. - Ento em guarda!  o meu esprito que vos vai
atacar, no a ponta da minha espada... Respondei-me como
homens a isto: Quando a pungente dor apunhala o destino E a
tristeza cruel oprime o corao Ento a msica de som
argentino...
Porqu som argentino? Porqu msica de som argentino? Que
dizeis a isto, Simo Bordo?
1 MsICo. - Ora essa!  porque a prata tem um lindo som.
PEDRo. - ptimo! E que dizeis vs, Hugo Rebeca?
2 Msico. - Eu digo que  porque os msicos s tocam por
pratinha...
PEDRo. - ptimo tambm. E vs, Jaime Viola, que dizeis?
3 Msico. - Eu c no sei.
PEDRo. - Oh! Desculpai-me: vs sois o cantor! Pois bem, eu
vou responder por vs. A msica tem um som argentino porque os
msicos nunca tm ouro soante. Ento a msica de som
argentino Bem depressa vos consolar.

(Sai.)

1 Msico. - Oh! Que refinado malandro!
2 MSICo. - Enforcado seja ele. V, entremos para aqui.
Esperemos pelos doridos e fiquemos para jantar.

(Saem.)

Acto V

Cena I

- Mntua. Uma rua

(Entra ROMEU.)

RoMEu. - Se eu pudesse acreditar na aduladora viso do sono,
seriam os meus sonhos pressgio de prximas e alegres novas.
Aquele que domina o meu corao est serenamente sentado no
seu trono e hoje durante o dia um singular entusiasmo me eleva
acima da terra com alegres pensamentos. Sonhei que a minha
esposa veio ter comigo e me encontrou morto (estranho sonho,
que d a um morto a faculdade de pensar); depois, com os seus
beijos, ela insuflou-me a vida atravs dos lbios, fez-me
ressuscitar e eu tornei-me imperador. Meu Deus! Que doce no
ser a posse do amor, quando a sua sombra  j to rica de
alegria! (Entra BALTASAR, com botas de montar.) Notcias de
Verona? O que h, Baltasar? No me trazes carta de Frei
Loureno? Como est a minha esposa? O meu pai est bem? Como
est a minha Julieta? Torno a perguntar-to, pois nada pode
estar mal se ela estiver bem.
BALTASAR. - Ela est bem, e portanto nada pode estar mal. O
seu corpo repousa no tmulo dos Capuletos e a sua alma imortal
vive com os anjos. Eu vi-a colocar no tmulo da famlia e
depois montei a cavalo para depressa vo-lo vir dizer. Oh!
Perdoai-me se to ms notcias vos trago, mas quis cumprir o
dever de que vs me tnheis encarregado, meu senhor.
RoMEu. -  isso possvel? Ento eu desafio-vos, estrelas! Tu
sabes onde eu moro: vai-me buscar tinta e papel e alugar
cavalos da posta. Eu parto esta noite.
BALTASAR. - Imploro-vos que vos acalmeis, senhor. A vossa
palidez e ar desvairado anunciam alguma desgraa.
RoMEu. - Pois enganas-te. Deixa-me e faze o que te mando.
No me trouxeste carta de Frei Loureno?

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BALTASAR. - No, meu bom senhor.
ROMEu. - No importa. Parte e vai alugar-me os cavalos; eu
vou j ter contigo. (Sai BALTASAR) Bem, Julieta. Esta noite
dormirei junto de ti. Procuraremos o meio. Oh! Destruio!
Como ests sempre pronta a entrar no pensamento do homem
desesperado! Lembro-me dum boticrio que mora muito perto
daqui. Ainda h pouco o vi coberto de farrapos, de testa
franzida, ocupado a colher simples. Tinha o rosto bem
emagrecido; a spera misria minou-o at aos ossos. Na sua
pobre botica l vi, dependurados, uma tartaruga, um jacar
empalhado e peles de peixes monstruosos; nas estantes s se
viam uma miservel coleco de caixas vazias, boies de barro
verde, bexigas, sementes podres, restos de barbante, velhas
ptalas de rosas, tudo miseravelmente espalhado a fazer de
fornecimento. Ao ver aquela penria, disse para comigo mesmo:
"Se um homem tivesse necessidade dum veneno, embora a sua
venda seja em Mntua punida com a morte, aqui est um pobre
diabo que Lho venderia com certeza." Esse meu pensamento era
afinal predecessor da minha presente necessidade; e vai ser
esse pobre homem que mo vai vender... Se bem me lembro, deve
ser esta a casa dele; como hoje  dia santo, o desgraado
fechou a loja... Ol,  boticrio!

(Entra o BOTICRIO.)

BOTICRIO. - Quem me chama to alto?
RoMEU. - Vem c, homem... Vejo que tu s pobre... Toma, aqui
tens quarenta ducados. D-me uma dose de veneno, mas quero uma
droga to enrgica que, mal espalhe pelas veias do desgraado,
farto de viver, este caia logo morto, e que a alma lhe fuja do
corpo com tal violncia e rapidez como se fosse plvora
inflamada saindo das entranhas fatais do canho.
BOTICRIO. - Desses mortais venenos tenho eu, mas as leis de
Mntua condenam  morte todo aquele que os vender.
RoMEu. - O qu! Pobre e miservel como s, receais a morte?
Tens a fome retratada nas faces; a necessidade e a opresso
lem-se nos teus olhos; a pobreza e o desprezo pesam no teu
dorso. Nem o mundo nem as suas leis so teus amigos:

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pelas leis do mundo nunca tu enriquecers. Portanto, esquece a
lei, deixa de ser pobre e pega nisto.
BoTICRIo. -  a minha pobreza que aceita, no a minha
vontade.
RoMEu. - Eu pago a tua pobreza, e no a tua vontade.
BoTIcRIo. - Misturai isto no lquido que quiserdes e
bebei-o; mesmo que tivsseis a resistncia de vinte homens,
caireis morto imediatamente. .
RoMEu. - Aqui tens o teu ouro; este veneno  mais funesto 
alma humana e comete mais assassnios neste odioso mundo do
que estas pobres misturas que tu no tens direito de vender.
Sou eu que te vendo veneno, tu nenhum me vendeste. Adeus.
Compra alimentos e trata de engordar. Oh! Cordial substncia,
tu no s um veneno! Vem, vem comigo ao tmulo de Julieta, que
 l que eu me servirei de ti.

(Saem.)

Cena II

- Cela de Frei Loureno

(Entra FREI JOO.)

FREI Joo. - Oh! Reverendo Franciscano! Ol, irmo!

(Entra FREI LOURENO.)

FREI LOURENO. - Esta deve ser a voz do irmo Joo. Sede
bem-vindo de Mntua. Que diz Romeu? Trazeis carta dele?
Entregai-ma.
FREI Joo. - Fui procurar um irmo descalo pertencente 
nossa Ordem, que andava a visitar os enfermos desta cidade,
para que me servisse de companheiro; mas, ao encontr-lo numa
casa que os agentes da cidade suspeitavam estar infestada pela
peste, selaram-nos as portas e no quiseram deixar-nos sair.
Desta maneira foi retardada a minha partida para Mntua.
FREI LoURENo. - Ento quem  que levou a minha carta para
Romeu?

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FREI Joo. - No me foi possvel envi-la; ei-la aqui, pois
nem consegui arranjar portador que vo-la trouxesse, tal era o
medo que todos tinham do contgio.
FREI LouRENo. - Deplorvel contratempo! Pela minha santa
Ordem, que essa carta no era insignificante. Continha coisas
de alta importncia, e este atraso pode provocar graves
acontecimentos. Frei Joo, ide buscar-me uma alavanca de ferro
e trazei-ma imediatamente para a minha cela.
FREI JOO. - Vou j buscar-vo-la, irmo. (Sai.)
FREI LOURENO. - Agora tenho de ir sozinho ao mausolu.
Daqui a trs horas Julieta acordar. Vai maldizer-me por Romeu
no ter sido avisado destes acontecimentos; mas vou escrever
de novo para Mntua e esconder Julieta na minha cela at 
chegada de Romeu. Pobre corpo vivo, encerrado no tmulo dum
morto! (Sai.)

Cena III

- Um Cemitrio.

Mausolu dos Capuletos

(Entra PRIS, seguido dum PAJEM que traz flores e uma
tocha.)

PRIs. - D-me c a tocha, rapaz. Retira-te e fica a
distncia; mas... no; apaga-a, porque no quero que algum me
veja. Vai-te deitar ao comprido debaixo daqueles teixos e cola
o ouvido  terra sonora. P algum pisar o solo deste
cemitrio, amolecido e escavado pela p do coveiro, sem que tu
o ouas; neste caso, assobiars para me dares sinal de que
ouviste algum aproximar-se... D-me essas flores. Faze o que
te disse. Vai.
PAJEM (aparte). - Quase tenho medo de ficar sozinho aqui no
cemitrio; mas no tenho outro remdio seno aventurar-me...
(Retira-se.)
PRIs. - Oh! Minha querida flor! Vou semear de flores o teu
leito nupcial, cujo dossel  feito de p e pedras; aqui virei
todas as noites orvalh-lo de gua perfumada, ou,  falta
dela, orvalh-lo-ei com lgrimas destiladas pelos meus
suspiros. As exquias que por ti celebrarei sero o vir aqui
todas as noites semear de flores o teu sepulcro e chorar. (O
PAJEM assobia.) O rapaz deu-me sinal de que algum se
aproxima. Quem ser o ser maldito que vagueia por aqui esta
noite a perturbar as minhas homenagens e o preito do meu amor?

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O qu! E com uma tocha? , noite, com o teu vu esconde-me por
um instante. (Retira-se.)

(Entra ROMEU, seguido de BALTASAR, que traz uma tocha, um
alvio, etc.)

RoMEu. - D-me esse alvio e essa alavanca de ferro. Toma,
pega nesta carta, e aos primeiros alvores da manh vai
entreg-la ao meu senhor e pai. D-me a luz. Pela tua vida,
ouve o que te ordeno: ouas tu o que ouvires ou vejas o que
vires, conserva-te a distncia e no me interrompas. Se eu
deso a este leito de morte,  em parte para contemplar o
rosto da minha esposa, mas principalmente para lhe tirar do
seu dedo morto um precioso anel a que eu quero dar um grato
emprego. Portanto, afasta-te... Mas se, por curiosidade, tu
ousares voltar aqui para espiares o que eu vou fazer, juro-te
que te farei em pedaos e semearei os teus membros por este
cemitrio esfaimado! A hora  sinistra como a minha resoluo,
que  mais terrvel e inexorvel do que os tigres famintos ou
o mar bramante.
BALTASAR. - Eu vou-me, senhor, e no vos perturbarei.
RoMEu. -  assim que me mostrars a tua amizade. Toma l.
Vive e s feliz... Adeus, bom amigo.
BALTASAR (aparte). - Apesar de tudo, vou-me esconder aqui
perto; assusta-me o seu olhar e duvido das suas intenes.
(Retira-se.)

RoMEu. - Oh! Antro abominvel, seio da morte, que tragaste o
mais precioso manjar que a Terra possua. Eis como eu foro as
tuas maxilas podres a abrirem-se, e contra a tua vontade te
fao engolir uma outra presa. (Abre o tmulo.)
PRIs. - Foi este o desterrado e altivo Montecchio que matou
o primo da minha bem amada, e por este desgosto se cr ter
morrido essa adorvel criatura... Ele vem aqui para qualquer
profanao aos cadveres. Vou prend-lo. (Avana.) Suspende o
teu mpio trabalho,  vil Montecchio.
Pode a vingana prosseguir para alm da morte? Ests preso,
miservel condenado! Obedece e vem comigo, porque tu deves
morrer.
RoMEu. - Devo, na verdade, e  por isso que aqui vim...
Bom e gentil mancebo, no tentes um homem desesperado.

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Foge daqui e deixa-me. Pensa em todos estes mortos, para que
eles te faam fugir receoso. Suplico-te, jovem, no queiras
sobrecarregar a minha conscincia com um novo pecado,
excitando a minha clera... Oh! Vai-te! Por Deus te juro que
te amo ainda mais do que a mim prprio, pois  contra mim
mesmo que eu aqui venho armado. No te demores, parte, e dize
mais tarde que a piedade dum louco te obrigou a fugir.
PRIs. - Recuso os teus pedidos e prendo-te por traidor.
ROMEU. - Queres provocar-me? Ento em guarda, criana!

(Combatem.)

PAJEM. - Meu Deus! Esto a bater-se! Vou chamar a guarda!
(Sai.)
PRIs (caindo). - Oh! Estou morto! Por caridade, abre o
tmulo e deita-me ao lado de Julieta! (Morre.)
RoMEU. - Pela minha f que isso farei. Examinemos-lhe o
rosto. Um parente de Merccio, o nobre conde Pris. Que me
vinha dizendo o meu criado pelo caminho? A minha alma, batida
pelas tempestades, no lhe deu ateno... Julgo que me contou
que Pris devia casar com Julieta. Ter-me-ia dito isto, ou fui
eu que sonhei? Ou estou to doido que imaginei isto s pelo
facto de o ouvir falar de Julieta? Oh! D-me a tua mo! Como
eu, foste tambm inscrito no livro da adversidade. Vou
sepultar-vos num tmulo glorioso... Um tmulo? Oh! No, pobre
vtima, no  um tmulo, mas um farol, pois Julieta repousa
ali e a sua beleza faz deste sepulcro um palcio iluminado.
Oh, morto, repousa aqui;  outro morto que te enterra. (Depe
PRIs no tmulo.) Quantas vezes os moribundos experimentam um
momento de alegria!  aquilo a que costumam chamar o relmpago
precursor da morte... Ah! Como posso eu comparar isto a um
relmpago? Oh! Meu amor! Minha esposa! A morte, que sugou o
nctar do teu hlito, no teve ainda poder sobre a tua beleza.
Ela ainda no te conquistou; o pavilho da beleza ostenta-se
ainda rubro nos teus lbios e nas tuas faces, e o plido
estandarte da morte ainda no conseguiu arvorar-se a.
Tebaldo! Eis-te aqui envolto no teu lenol sanguinolento! Que
maior reparao posso fazer-te do que, com esta mo que
decepou a tua mocidade, matar aquele que foi teu inimigo?
Perdoa-me, meu primo!

87

Oh! Minha querida Julieta, porque ests tu ainda to bela?
Devo acreditar que o incorpreo fantasma da morte se apaixonou
por ti, e que esse monstro esqulido e hrrido te guarda aqui
na escurido para fazer de ti sua amante?  para te defender
que eu ficarei a teu lado para sempre e nunca mais abandonarei
este palcio, onde reina a sinistra noite.  aqui que eu quero
ficar com os vermes, teus servidores. Aqui fixarei a minha
eterna morada, libertando do jugo das estrelas funestas este
corpo fatigado do mundo. Fitai-a pela ltima vez, olhos meus,
e vs, meus braos, dai-lhes o vosso ltimo abrao. Vs, meus
lbios, vs, que sois as portas da respirao, selai com um
legtimo beijo o pacto eterno com a morte voraz. Vem, amargo e
fatal guia! Vem, piloto sem esperana, e atira contra os
rochedos o meu batel fatigado da tormenta! Por ti, minha
amada! (Bebe o veneno.) Abenoado boticrio!  activa a tua
droga! Assim... morro com um beijo! (Morre.)

(Entra, pelo outro lado do cemitrio, FREI LOURENO com uma
lanterna, alavanca e alvio.)

FREI LOURENO. - So Francisco me ajude! Quantas vezes 
que os meus velhos ps pisaram tmulos durante a noite? Quem
est a?
BALTASAR. - Um homem que  vosso amigo e que vos conhece
bem.
FREI LoURENo. - Deus te abenoe. Dize-me c, amigo, que
tocha  aquela que d inutilmente a sua luz s larvas e aos
crnios sem olhos? Se no me engano, arde no mausolu dos
Capuletos.
BALTASAR. -  verdade, Reverendo Padre. Est l o meu amo,
de quem vs sois amigo.
FREI LOURENO. - Quem  ele?
BALTASAR. - Romeu.
FREI LOURENO. - H quanto tempo est ele l?
BALTASAR. - H mais de meia hora.
FREI LOURENO. - Vinde comigo ao mausolu.
BALTASAR. - No me atrevo, senhor. O meu amo julga que eu
me fui embora; ele ameaou-me de morte em termos assustadores
se eu ficasse a espreit-lo.

88

FREI LoURENo. - Fica ento, que eu vou sozinho. Comeo a
ter um certo receio. Oxal no tenha sucedido alguma desgraa.
BALTASAR. - Enquanto dormia debaixo deste teixo sonhei que o
meu amo se batia com outro homem e que o matou.
FREI LOURENO (aproximando-se). - Romeu! Meu Deus, meu Deus!
Que sangue  este que mancha a entrada de pedra desta
sepultura? Para que estaro aqui neste lugar de paz estas
espadas ensanguentadas e sem dono? (Entra no tmulo.) Romeu!
Oh! Como est plido!... E quem  estoutro? O qu? Pris
tambm? E banhado em sangue? Oh! Que cruel hora a que foi
culpada desta lamentvel catstrofe! Oh! Ela est a
mover-se!...

(JULIETA acorda.)

JULIETA. - Oh, caridoso irmo, onde est o meu senhor?
Lembro-me bem em que lugar eu devo estar, e c estou... Mas
onde est Romeu?

(Ouve-se barulho.)

FREI LouRENo. - Ouo um certo rudo. Minha filha,
abandonemos este antro de morte, de contgio e de sono contra
a natureza. Um poder mais forte do que o nosso se ergueu para
contrariar os nossos planos. Vem, vem. Fujamos daqui. O teu
marido a jaz morto nos teus braos; Pris tambm. Anda, vem
comigo, que eu vou meter-te numa comunidade de santas
religiosas. No percas tempo com perguntas, que a vem a
guarda. Vem, vem, minha boa Julieta. (Ouve-se barulho outra
vez.) Eu no ouso ficar aqui por mais tempo.
JULIETA. - Ide, ide vs, porque eu no sairei daqui. (Sai
FREI LOURENO.) Que  isto? Um frasco to apertado na mo do
meu to fiel amor? Agora vejo que foi o veneno que to cedo o
levou. Oh! Egosta! Para que o bebeste tu todo e no deixaste
uma gota amiga que me ajudasse a ir ter contigo? Vou beijar os
teus lbios, meu amor; talvez a encontre um resto de veneno,
cujo blsamo me far morrer... (Beija-o.) Os teus lbios ainda
esto quentes!
1 GUARDA (de dentro). - Conduz-nos, rapaz. Qual  o
caminho?
JULIETA. - O qu? Barulho? Ento no h tempo a perder.

89

Oh, punhal abenoado! (Agarrando no punhal de ROMEU.) Eis a
tua bainha... (Apunhala-se.) Cria ferrugem no meu peito e
deixa-me morrer! (Cai sobre o cadver de RoMEu e expira.)

(Entra a guarda com o PAJEM de PRIs.)

PAJEM. -  aqui. Ainda ali est a tocha a arder.
1 GUARDA. - O cho est ensanguentado. Ide alguns de vs
procurar por todo o cemitrio e prendei todo aquele que
encontrardes. (Saem alguns guardas.) Oh! Que espectculo
desolador! Aqui est o conde assassinado e Julieta coberta de
sangue, ainda quente... Mas ela tinha j sido enterrada h
dois dias!... Ide prevenir o Prncipe, correi a casa dos
Capuletos e ide tambm despertar os Montecchios... Os outros
que investiguem. (Saem outros guardas.) O lugar onde todos
estes infelizes esto vemos ns bem, mas as verdadeiras causas
que deram lugar a estes desastres no podemos descobri-las sem
inqurito.

(Entram alguns guardas trazendo BALTASAR.)

2 GUARDA. - Aqui est o criado de Romeu; encontrmo-lo no
cemitrio.
1 GUARDA. - Conservai-o preso at que o Prncipe chegue.

(Entra outro guarda com FREI LOURENO.)

3 GUARDA. - Encontrei este frade a tremer, a suspirar e a
chorar. Apreendemos-lhe este alvio e esta alavanca quando
saa deste lado do cemitrio.
1 GUARDA. - Grave suspeita! Prendei tambm o frade.

(Entra O PRNCIPE COm O seu squito.)

PRNCIPE. - Que desgraa  esta que to cedo se levantou
para perturbar o nosso repouso matutino?

(Entram CAPULETO, LADY CAPULETO e outros.)

CAPULETO. - Qual  o motivo que assim faz gritar toda a
cidade?

90

LADY CAPULETO. - S se ouve nas ruas o povo a gritar:
"Romeu!... Julieta!... Pris!..." E tudo corre para aqui em
grande alvoroo.
PRNCIPE. - Que terror  esse que assim causa sobressalto
aos nossos ouvidos?
1 GUARDA. - Soberano senhor! Eis aqui o conde Pris
assassinado, Romeu morto, e Julieta, que j tinha morrido,
ainda quente e recentemente assassinada.
PRNCIPE. - Procurai, indagai e descobri como se deu esta
terrvel mortandade.
1 GUARDA. - Aqui est um frade e o criado do defunto Romeu,
a quem encontrmos os instrumentos precisos para abrir os
tmulos destes mortos.
CAPULETO. - Oh, Cus! Vede como a nossa filha sangra, esposa
minha! Este punhal enganou-se; o seu lugar est vago na cinta
de Montecchio e erradamente se embainhou no peito da minha
filha.
LADY CAPULETO. - Meu Deus! Este espectculo fnebre  como o
dobrar dos sinos chamando ao sepulcro a minha velhice.

(Entram MONTECCHIO e outros.)

PRNCIPE. - Aproxima-te, Montecchio. Levantaste-te cedo para
veres o teu filho e herdeiro, que bem cedo tambm acaba de
deitar-se.
MoNTECCHIO. - Ai, senhor! A minha esposa morreu esta noite.
Foi o exlio do filho que assim lhe causou a morte. Que nova
desgraa conspirar ainda contra a minha velhice?
PRNCIPE. - Repara e vers.
MONTECCHIO. - Oh! Filho ingrato! Como te atreveste a
anteceder teu pai na sepultura?
PRNCIPE. - Suspendei por um momento as vossas imprecaes
at que possamos esclarecer estes mistrios, conhecer a sua
origem, causa e consequncias. Serei eu que depois me porei 
frente do vosso luto e, se for preciso, conduzir-vos-ei at 
morte. Por agora suspendei os vossos lamentos, e que a
desgraa seja escrava da pacincia... Trazei  minha presena
as pessoas suspeitas.

91

FREI LOURENO. - Se bem que eu seja o menos capaz de
praticar esta aco, sou, contudo, o mais suspeito, pois que a
hora e o lugar concorrem para me imputarem este horrvel
assassnio. Aqui estou, pois, disposto a acusar-me e a
defender-me.
PRNCIPE. - Dize ento depressa tudo quanto acerca disto
sabes.
FREI LOURENO. - Serei breve, pois que o pouco alento que
me resta no chegaria para uma longa histria. Romeu, que ali
est morto, era o marido de JuLIeta, e ela, que tambm est
morta, era a fiel esposa de Romeu. Fui eu que os casei, e o
dia do seu casamento clandestino foi tambm o ltimo dia de
Tebaldo, cuja morte intempestiva desterrou de Verona o
recm-casado. Era Romeu, e no Tebaldo, quem Julieta chorava.
Vs, para dela afastardes essa tristeza, prometeste-la ao
conde Pris e quereis  fora cas-la com ele. Ela ento veio
ter comigo, e, de semblante transtornado, pediu-me que lhe
descobrisse um meio para a libertar deste segundo casamento,
ou de contrrio matar-se-ia. ali mesmo na minha cela. Ento,
fazendo uso da minha cincia, dei-lhe um narctico que
produziu o efeito que eu esperava, pois Lhe deu aparncia de
morta. Ao mesmo tempo escrevi a Romeu, para se dirigir aqui
nesta noite fatal e me ajudar a tir-la deste tmulo
emprestado no momento em que a aco do narctico devia
terminar. Mas o portador da minha carta, Frei Joo, foi preso
acidentalmente e voltou a dar-ma ontem  noite. Ento vim aqui
sozinho,  hora em que Julieta devia despertar, para a retirar
do tmulo dos seus antepassados e escond-la na minha cela at
me ser possvel envi-la a Romeu. Quando, porm, aqui cheguei,
alguns minutos antes de ela despertar, encontrei, jazendo por
terra, o nobre PrIs e o fiel Romeu. Ela acordou e eu ento
supliquei-lhe que sasse daqui e suportasse com pacincia esta
fatalidade. Mas eis que um rudo me obrigou a sair do
sepulcro; Julieta, desesperada, recusou-se a seguir-me, e foi
sem dvida ento que se matou. Eis tudo quanto sei. Quanto ao
seu casamento, a ama conhecia-o. Se em tudo isto alguma coisa
aconteceu por culpa minha, que esta velha vida seja
sacrificada ao rigor da mais severa lei algumas horas antes do
seu fim.
PRNCIPE. - Tu foste sempre tido por um santo homem.
Onde est o criado de Romeu? Que sabe ele a respeito de tudo
isto?

92

BALTASAR. - Eu levei ao meu amo a notcia da morte de
Julieta e ento ele abandonou Mntua e veio a este lugar, a
este mesmo mausolu. Disse-me que entregasse de manh cedo
esta carta a seu pai, ameaando-me de morte ao entrar neste
sepulcro se me no afastasse e o no deixasse s.
PRNCIPE. - D-me essa carta. Quero v-la. Onde est o pajem
do conde que foi chamar a guarda? Ol, meu vadio, que veio o
teu amo fazer aqui?
PAJEM. - Veio juncar de flores o tmulo da sua noiva, e
ordenou-me que me conservasse a distncia, ao que eu obedeci.
A seguir, veio algum com uma luz, para abrir o tmulo. Alguns
instantes depois, o meu amo desembainhou a espada e eu corri a
chamar a guarda.
PRNCIPE. - Esta carta confirma as palavras de Frei
Loureno. Romeu conta as peripcias do seu amor... a notcia
da morte de Julieta... Diz aqui que comprou o veneno a um
pobre boticrio e com ele se dirigiu a este sepulcro, para
morrer e ficar repousando ao lado de Julieta... Onde  que
esto esses inimigos? Capuleto! Montecchio! Vede que maldio
pesa sobre o vosso dio. O Cu encontrou meios de matar as
vossas alegrias com o amor... E eu, por ter fechado os olhos
aos vossos dios, perdi dois dos meus parentes: todos fomos
bem castigados.
CAPULETO. - Oh! Meu irmo Montecchio! D-me a tua mo. Este
 o dote da minha filha, pois nada mais posso reclamar.
MONTECCHIO. - Mas eu posso dar-te mais. Hei-de mandar
erguer, em honra da tua filha, uma esttua de puro ouro. E,
enquanto Verona for conhecida por este nome, no haver imagem
alguma a quem se preste maior venerao do que  da leal e
fiel Julieta.
CAPULETO. - De igual esplendor mandarei eu fazer uma a
Romeu, que ficar ao lado da sua esposa. Pobres vtimas da
nossa inimizade!
PRNCIPE. - Sinistra paz traz consigo esta manh; para nos
mostrar a sua dor, o Sol velou o seu rosto. Retiremo-nos daqui
para falarmos ainda sobre estes tristes acontecimentos. Uns
sero perdoados, outros sero punidos, pois jamais histria
alguma houve mais dolorosa do que a de Julieta e a do seu
Romeu.

(Saem.)

NOTA BIOBIBLIOGRFICA

WILLIAM SHAKESPEARE nasceu em 1564 em Stratford-on-Avon. O
seu pai, John Shakespeare, era negociante de cereais. William
frequentou a Grammar School de Stratford-on-Avon, mas, em
1578, viu-se obrigado a abandonar os estudos por dificuldades
financeiras. Em 1582, casou com Anne Hathaway de quem teve
trs filhos.
A sua paixo pelo teatro levou-o a empregar-se muito jovem
numa companhia de teatro, onde desempenhou as tarefas mais
humildes. Em Londres, iniciou a sua carreira de actor e mais
tarde comeou a fazer adaptaes de peas. Em 1599, tornou-se
empresrio do teatro The Globe (que viria a desaparecer num
incndio em 1613) e em 1608 comeou a escrever para o teatro
de Blackfriars.
Depois de um breve perodo em que foi fortemente
influenciado por Marlowe - Tito Andrnico (1590), em Henrique
VI (1589), Ricardo III (1593) -, criou o seu prprio estilo. A
sua poca de maior fecundidade literria abrange a primeira
dcada do sculo xvII.
Shakespeare criou o teatro nacional do seu pas, fundindo os
elementos populares com a tradio culta renascentista.
Descreveu magistralmente as personagens, conferindo-lhes uma
dimenso universal.
Escreveu 37 obras dramticas que habitualmente se
classificam em trs grupos: comdias, dramas histricos e
tragdias.
As primeiras so de carcter jocoso ou de comdia de
costumes e recorrem a engenhosos artifcios com uma finalidade
moralizante, ou so de tema fantstico. Os dramas histricos
centram-se na figura de reis ingleses. As tragdias, baseadas
em personagens da histria romana ou medieval ou em contos
italianos, revelam toda a fora criadora do autor e os seus
protagonistas tornaram-se figuras emblemticas da literatura
universal.

Obras:

Poesia:

Vnus e Adnis (1593),
Lucrcia (1594),
Sonetos (1609);

Comdias:

A Floresta dos Enganos (1591),
Canseiras de Amor Baldadas (1594),
O Amansar da Fera (1595),
Os Dois Cavaleiros de Verona (1593),
Sonho de Uma Noite de Vero (1595),
Muito Barulho por Nada (1598-99),
Como Lhe Aprouver (1599),
O Mercador de Veneza (1596-97),
As Alegres Comadres de Windsor (1600),
Noite de Reis (1600),
Trilo e Crssida (1602),
Tudo Est Bem o Que Bem Acaba (1602-03),
Medida por Medida (1604-5),
Conto de Inverno (1610);

Dramas histricos:

Henrique IV (1590),
Ricardo III (1592),
Ricardo II (1595),
Henrique V (1598-99),
Henrique VIII (1613);

Tragdias:

Antnio e Clepatra (1606-7),
Jlio Csar (1599-1600),
Romeu e Julieta (1594-95),
Hamlet (1600),
Otelo (1604-5),
Macbeth (1605-6),
Rei Lear (1605-6),
Coriolano (1607-8),
A Tempestade (1611-12)

Scannerizao e Arranjo

Amadora, Dezembro de 2000
